segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Primeiro capítulo do regresso ao oásis





Maria João Avillez apresenta o intelectual, o homem que “ama as ideias sobre todas as coisas, intelectual, com o vício da leitura («das coisas que farei menos mal é saber ler um livro»), capaz de debater até à exaustão sem nunca desistir da procura da qualidade do argumento” (p.19), alguém absolutamente incapaz de ler uma tradução [sempre o original, p.24]. A isto, chamaria Paulo Portas raffinement.
Na obra que esteve para ser intitulada, nem mais, Um intelectual europeu, o primeiro capítulo é dedicado, especificamente, à carta de demissão de Vítor Gaspar. Maria João Avillez conta como discutiu, acaloradamente, com o autor, a própria existência da missiva. Ficámos a saber que o PM, com quem Gaspar continua a falar assiduamente, sabia da carta, achou bem a sua divulgação, porque um Ministro das Finanças não sai sem explicações.
O que politicamente mais interesse tinha/tem a carta [de demissão], em função do rumo que o país seguiu/segue/seguirá, é o reconhecimento da falência da procura interna e a existência de um desemprego jovem tremendo e, mais precisamente, da ligação de tais registos ao caminho (político) traçado.
Sobre o tema mais interessante da carta nem uma pergunta.
É verdade que a missiva – reproduzida, e bem, a benefício do leitor, no final do capítulo inicial – contem expressa referência aos valores da dívida e do défice. Gaspar confessa-se admirador do processo de ajustamento seguido pela Suécia, nos anos 90 do século passado. Viu, aí, como os responsáveis políticos assumiram os seus actos, as suas medidas, a sua política. Ora, sendo os valores do défice e da dívida diversos dos inicialmente acordados no memorando de entendimento com a troika – embora não acima dos valores pactados nas sucessivas revisões do mesmo memorando -, o ministro das Finanças sentiu-se na obrigação de se demitir.
A juntar a isto, a quebra política que impediu o fechar atempado – a jornalista diz que Gaspar usa demasiado a expressão “atempado”; Gaspar, no uso do seu peculiar humor, pergunta se acha melhor “tempestivo” – da sétima avaliação com a troika.
Dois, em suma, os motivos pelos quais Vítor Gaspar abandona o Ministério, segundo o próprio: a) valores do défice e da dívida acima dos inicialmente acordados com a troika; b) falta de coesão no interior do governo, com o CDS a discordar da política seguida (sobre o comportamento do CDS ficámos com a certeza que Maria João Avillez contará, no dia certo, as travessuras do parceiro de coligação do PSD).
Gaspar fala, na carta, na segunda fase necessária à legislatura: a do investimento. Portas reclama a fase do investimento. Maria Luís Albuquerque seria a continuidade das políticas de Gaspar. Do Gaspar pré-fase de investimento. Portas renuncia porque Maria Luís é Gaspar com saias. Portas fica, ficando também Maria Luís que é a face das políticas do Gaspar pré-fase de investimento. Gaspar tece loas a Maria Luís que continua as políticas pré-fase de investimento, tendo Gaspar pedido (o dito) na segunda fase da legislatura.
Bom, no capítulo primeiro da entrevista a Maria João Avillez, Vítor Gaspar elogia, reiteradamente, Pedro Passos Coelho – por quem nutre “uma grande admiração” -, afirma que “Maria Luís é única” e fala, já, no processo de ajustamento no passado – foi; corrige, para o tempo presente, é, solicitado pela entrevistadora – como tendo corrido muito bem: Portugal é, mesmo, atente-se!, “embora de forma modesta, o financiador líquido do resto do mundo” (p.37), pois já não tem “défice externo”.
Claro que a forma verbal no passado denuncia a “tempestividade” da entrevista: prolongada para lá, bem para lá, do momento da saída de Gaspar e numa conjuntura (pequenos indicadores económicos, muita propaganda) bastante diversa. Sobre o tempo da entrevista, repare-se no pormenor de ser Paulo Macedo , nos últimos dias acossado nos telejornais, mas durante dois anos a mais popular figura do Executivo - quem, na apresentação escrita por Maria João Avillez, cauciona o modo de agir, de ser, de explicar – nomeadamente, em Conselho de Ministros – por parte de Vítor Gaspar.
Já não gastamos acima das nossas possibilidades (p.43; estamos, até, “a gastar um pouco menos do que produzimos”); nunca um ministro das Finanças foi tão apoiado por um PM (p.50) e a opinião de Vítor Gaspar sobre a sociedade portuguesa “é óptima”. “A sério”(p.53)
Em explicações que passam por Keynes – entre a exuberância intelectual e a ironia do costume -, repare-se, ainda, na reprodução de quadros que o livro ostenta (muita eruditio, muita eruditio). O livro começa com O sonho da razão produz monstros (de Goya).
Não fora isso, afinal, que Gaspar confessava na carta, inexplicavelmente “desaparecida do debate político” (Adriano Moreira)?


P.S: a julgar pelo primeiro capítulo deste livro-entrevista, António José Seguro terá, agora, muitas dificuldades em recuperá-la, com algum proveito.


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