quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre a 'geração grisalha' (II)


Adriano MOREIRA, A Geração Grisalha, in Memórias do Outono ocidental. Um Século sem Bússola, Almedina, Coimbra 2013, 11-24. 

A mistura inevitável, pela coincidência de viverem algum tempo comum, encaminha ao mesmo tempo para um relativismo que não presta atenção ao facto de não existirem árvores sem raízes, nem futuros sem alicerces, e que, confrontada com o multiculturalismo em liberdade política soberana, ou circulando livre pelas áreas dos antigos dominadores ocidentais, considera alternativas todas as formas de viver e conviver, transformando a antiga sociedade civil em multidão.
Uma multidão que, de algum modo visionários, analistas como Michael Hardt e António Negri (Rio de Janeiro, Record, 2005) pensam estar a evoluir para uma “ordem mundial acêntrica”, uma verdadeira democracia que ultrapassa o debate entre o sovietismo e as democracias capitalistas, que disputaram entre si o que chamaram Império, uma tarefa ultrapassada, para agora designar a espécie de anarquia mundial com que finalmente chegamos à brutal crise económica e financeira desta entrada do Milénio, em que consideram o poder concentrado em Estados-Nação ricos, corporações multinacionais, supranacionais como a ONU e o FMI, impondo uma falsa democracia que cria exclusões dos amavelmente chamados Estados em desenvolvimento, mas de facto impedidos de chegar à afluência e consumismo dos poderes que monopolizam a supremacia.
Fixando-nos sobretudo nesta última visão de crise em que nos encontramos, julgo que primeiro devemos sublinhar, em consequência de muitas das causas antes sumariamente alinhadas, a urgência de nos fixarmos no Ocidente que perdeu, em duas guerras mundiais, a supremacia política, e a questão dos valores.
A UNESCO lançou o debate sobre o património imaterial da humanidade, para identificar e salvaguardar os valores, sobretudo os que se admite serem comuns a todas as áreas culturais. Mas a verificação inquietante neste Ocidente, que recusou a referência às raízes cristãs, quando tentou constitucionalizar a Europa, ficando-se pelo Tratado de Lisboa, aquilo que conseguiu tomar dominante, em todo o espaço ocidental, foi o credo do mercado, a troca do valor das coisas pelo preço das coisas, transformando a ganância em virtude. O Prof. Diego Gracia Guillén (La Cuestión del valor, Real Academia de Ciências Morales y Políticas, Madrid, 2010) descreve muito bem esta mudança quando escreve: “não deixa de ser surpreendente que tenha sido a cultura ocidental a única que concedeu à eficiência um lugar tão proeminente, e que além disso o tenha feito em época tão tardia como o século XVIII, em consequência do auge da teoria económica”. Não deixa de notar que também concorreu para este facto aquilo que chama a “reacção idealista”, não reconhecendo a articulação entre valores instrumentais e valores intrínsecos. O resultado visível é que a opção pelo que chama valores instrumentais afasta os saberes técnicos dos saberes humanistas, e agrava a contradição das gerações em função do peso relativo dos valores adoptados.
Uma das graves consequências é que o progresso da técnica, exigindo, como dissemos, gente mais qualificada e menos gente, apressa socialmente o envelhecimento dispensando em idades não avançadas os homens que viverão mais tempo, faz da visão social de idade um fardo financeiro e não produtivo, avança na adopção das conclusões da ciência sobre a vida para desvalorizar a vida, quer no que respeita ao início, quer no que respeita ao fim dela. Uma linha média tende para armazenar os velhos em depósitos chamados lares, por abuso da semântica.
A ameaça social contra o envelhecimento anima a indústria da defesa estética no sentido de manter as aparências da juventude, e de novo, por tal caminho, o valor das coisas é vencido pelo preço das coisas.
Do ponto de vista individual, o efeito mais severo da longevidade é a sobrevivência, é ser o que ainda está vivo, e não tem já companhias de infância, parceiros da juventude, amigos dos tempos de intervenção activa na vida do agregado. Realmente, habitante de um mundo que já não é o seu mundo.
É por isso que, sempre que os governos, para responderem ao dever político da integração dos jovens, não deixam de apelar ao papel integrador das famílias, a pergunta que logo ocorre é pedir a definição de família a que apelam: à família sacramentada, à civil, à do pedaço do caminho, à de facto, à de nome, ou àquela, que parece defrontar ataques sucessivos, em que a solidariedade se baseava na geração sabida e vivida, e não era quebrada pela longevidade dos seus membros?

O que continua a verificar-se é o progresso da afirmação do direito em favor da liberdade do corpo, a utilização das células estaminais em favor da vida, a morte assistida ou a eutanásia em favor da morte libertadora, tudo confrontos éticos, e não com a ciência, mas sobretudo, com raras excepções, com o credo do mercado.

(cont.)


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