domingo, 9 de fevereiro de 2014

Sobre a 'geração grisalha' (III)


Adriano MOREIRA, A Geração Grisalha, in Memórias do Outono ocidental. Um Século sem Bússola, Almedina, Coimbra 2013, 11-24.



Os próprios EUA, que possuem o avanço em praticamente todos os ramos da ciência, recompensados pelos numerosos Prémios Nobel, viveram em conflito interno severo, quando o Presidente George W. Bush decidiu manifestar-se contra o aborto e não autorizar a morte de embriões, porque, escreveu, sentia a responsabilidade de divulgar as suas convicções pró-vida e de levar o país na direcção daquilo que o Papa João Paulo II chamou uma “cultura de vida”.
De facto, tanto quanto julgo entender, é uma grave questão entre o credo do mercado e os valores, que nesta época de anarquia, isto é, sem directivas seguras visíveis, se encontra no centro desta problemática em que a narrativa relativista vai ganhando espaço. Por consequência, ao mesmo tempo que a ciência e a técnica precisam de gente altamente qualificada, mas menos gente, também isso traz o envelhecimento para mais cedo, para a idade da reforma precoce quando as finanças o consentem, para o desemprego definitivo para os longos anos que a longevidade permite. E também para a crescente distância entre as gerações vivas da mesma linhagem, para a avaliação estatística da circunstância, para a decisão económica dos problemas, para a supremacia da contabilidade sobre a Declaração dos Deveres do Homem que, já formulada, não consegue a aprovação que teve a dos Direitos do Homem da ONU.
O multiculturalismo sem ordem, que anda confundido nas ideologias de governo com o cosmopolitismo de outros tempos, agrava este conflito de valores, prolonga a época de incerteza ética que vivemos para lonjuras temporais imprevisíveis.
O próprio conceito europeu, devido ao ilustre Delors, que orienta os europeus para uma sociedade da informação, e do conhecimento, esqueceu-se de acrescentar - e da sabedoria, porque ou regressamos ao predomínio da ética, dos valores, de um paradigma que sirva de limite às diferenças, entre as culturas diferentes, entre as etnias diferentes, entre as gerações diferenciadas, ou a situação dos velhos, cada vez mais severamente obrigados a ostentar a situação de ainda novos pelos efeitos do avanço da técnica, e cada vez mais velhos porque não conseguem recorrer aos avanços da ciência, obriga-os mais frequentemente a orar à Nossa Senhora da Boa Morte.
Um dos últimos Relatórios do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), concluía que havia no globalismo mundial 15 milhões de avós a tomar conta dos netos. Os lares para velhos confirmam que a ética exige o recurso à lembrança do imperativo de honrar pai e mãe. Descreve, sem reservas, o apelo à transcendência, exige o regresso aos valores, à salvaguarda do património comum da humanidade, que, entre nós, e no mundialismo que iniciamos, tem os valores cristãos nos alicerces. Trata-se de confrontar o credo do mercado com os valores esquecidos, de regressar ao vigor das comunidades de afectos, à responsabilidade ética intergeracional, ao respeito pela vida, vivida, enriquecida pela experiência, debilitada pela natureza, apoiada na generosidade dos valores se chegar à época temível do isolamento da sobrevivência, porque não envelhece quem envelhece ao nosso lado, no rosto dos seres amados reaparece sempre um sorriso da juventude, nas mãos calosas dos dispensados permanece o calor da amizade. No isolamento da sobrevivência, que é uma dor terminal, não é a estatística, é então o amor ao próximo que tem o seu dever.
Foi do Padre António Vieira o conceito de que Deus “fez o homem para a eternidade e não para o tempo”. Mas esta conclusão da fé, que orienta no sentido de aceitar que o Deus cristão “não é uma divindade da natureza mas sim o Deus da história, assumindo-se o cristianismo como religião em que Deus se revela no tempo” (P. Calafate), fez da vida de cada ser uma experiência limitada, um tempo breve que procura articular com um tempo longo das gerações que alongam a recusa dos tempos breves, dos quais disse Santo Agostinho: “se dissera estou aqui, entre a primeira sílaba e a segunda já o estou não seria estou, nem o aqui seria o mesmo lugar, porque como tudo está passando, tudo se teria mudado”.
É por tudo isto que o tema da morte chama à contínua precariedade do tempo breve, porque apenas Deus é o que é - Ego sum qui sum, eternamente idêntico a si próprio[1].
Mas é a questão do tempo breve, que a graça da fé modela diferentemente da falta dela, que inspira uma atitude de luta pela perenidade da memória desse tempo breve, no tempo que surge longo na imaginada soma da atenção das gerações futuras às marcas dos passos dados pelas antecessoras.
Um dos nossos mais notados cronistas, João de Barros, definindo a sua própria missão de cronista, deixou este comentário: “...têm (os homens) tanto amor à conservação do seu próprio ser que quanto lhes é possível trabalham em seu modo para se fazerem perpétuos”; e depois de salientar que as coisas da natureza se renovam, acrescenta que “as outras coisas que não são obra da natureza, mas feitos e actos humanos, estes, porque não tinham virtude animada de gerar outros semelhantes a si, e por a brevidade da vida do homem, acabam em seus autores. Os mesmos homens, por conservar o seu nome em memória deles, buscaram um divino artifício que representasse no futuro o que eles obravam em presente” (Década I).
A luta para ultrapassar o tempo breve, do qual há consciência com a certeza da morte, recorre a construções nas quais se destacam as instituições, no sentido rigoroso que lhe deram os juristas: ideias de obra ou de empresa que se perpetuam e duram apoiadas nas organizações em que os titulares participantes assumem a herança por tradição, que as fazem durar na articulação dos tempos breves. É o que se passa com as religiões institucionalizadas, com as universidades, com as academias, e também com as Nações que se organizam politicamente para enfrentarem os futuros apoiadas na memória do passado.
Forma-se um tecido cultural, de valores, de modelos de comportamento, de memória de exemplos, e da tradição que se traduz na passagem, de mão em mão, aos que nos sucedem, do património imaterial construído, o qual eles conservam e dinamizam. De facto, trata-se de compreender e assumir que a vocação da eternidade na terra está inscrita na cultura, obra dos homens, mas não na vida breve de cada um.
E todavia a narração da história dessas realizações humanas também mostra que estas se organizam por diferenciadas civilizações, as quais igualmente nascem, desenvolvem-se, atingem eventualmente um pico de exuberância, depois definham, e finalmente morrem.
O ilustre Toynbee foi um dos autores que nos advertiu desse trajecto que reproduz com maior duração a brevidade da vida dos fundadores e dos que aceitaram articular a soma das vidas breves até ao limite de um futuro de percurso sempre imprevisível.
Voltando ao Padre António Vieira, foi com a famosa História do Futuro, na qual, convicto, como vimos, de que Deus “fez o homem para a eternidade e não para o tempo”, se ocupou todavia com minúcia da “distinção dos tempos”, entendendo que, no que respeita às leis da história, “o tempo é a operação de coordenação reversível dos acontecimentos” (Calafate), afirmando, ao tratar das profecias, que o tempo altera a leitura em termos que os antigos não alcançaram, exercendo uma sabedoria que o tempo molda de tal modo que é natural a mudança de pareceres, assim como a prudência é no tempo que encontra a sua raiz. A própria noção de milagre a relaciona com o tempo, considerando que o milagre existe quando, como Cristo fez multiplicando os pães, é suprimido o tempo necessário à produção dos factos.
Temos assim que a brevidade do tempo humano, facto que tanto ocupou Santo Agostinho, e que, como recordei, tantas vezes agita os decisores políticos na execução de planos irrealistas, em termos de lhes fazer esquecer a prudência e até o sentido de responsabilidade que leva à liquidação do presente sonhado pelas gerações em que mandaram, faz do tempo de cada homem um valor que se esgota, sem reposição possível, breve na duração, sempre mais próximo do total inútil esgotamento.


(cont.)


[1] P. Calafate, “Expressões de temporalidade em António Vieira, in Vieira Escritor (Org. de Margarida Vieira Mendes, et. al.) Ed. Cosmos, Lisboa 1997.


Sem comentários:

Enviar um comentário