segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sobre a 'geração grisalha' (IV)


Adriano MOREIRA, A Geração Grisalha, in Memórias do Outono ocidental. Um Século sem Bússola, Almedina, Coimbra 2013, 11-24. 



Esta realidade assumida do tempo breve tem como característica inelutável que a reflexão sobre a morte acompanha cada relação entre o estou/estive, como sou/fui, e entre o aqui/outro lugar, com adesão pela fé na sobrevivência do espírito no além sem tempo, ou com resignada adesão à natureza efémera da oportunidade de intervir no mundo sem repetição possível, e ainda assim procurando contribuir para que o tempo breve seja alargado pela soma das parcelas que são as de cada geração.
Neste ponto nos surge a interrogação sobre qual é a natureza existencial do tempo para cada homem vivo, cada um desejavelmente consciente de que é um fenómeno que não se repete na história da humanidade. Por um lado exercendo a tendência, que lhe é natural, para, à medida que a informação, o saber, a experiência, enriquecem o espírito, tentar racionalizar a sua circunstância com qualificações e estruturações dos tempos em que se envolve, o seu breve tempo, e o breve tempo dos outros; por outro lado, usando a soma articulada de patrimónios culturais que nascem, crescem e morrem, agregando marcas das realidades circundantes de cada homem vivo, mais a herança dos tempos dos judeus, dos gregos, dos romanos, dos bárbaros; aplicando igual metodologia aos tempos da sua experiência de vida, tempos da juventude, tempos da maior idade, tempo da dependência crescente das terceira e quarta idades; e depois adjectivando os tempos, tempos felizes, tempos de incertezas, tempos de dores, tempos de esperanças, tempos de vitórias, tempos de derrotas, tempos de desistência, tempos para esquecer, tempos para lembrar, tempos de vésperas, tempos de solidão, tempos de amores, tempos de ódios, tempos de perdão.
Mas em todas estas circunstâncias, que rodeiam a vida breve, tomando a circunstância no sentido de Ortega, é também uma inquietação permanente, com alegria ou ausência dela, o facto de que esse tempo se gasta, se perde, se esgota. A angústia ou a excitação da longa espera, a dor ou a alegria do milagre da rapidez que surpreende com a dispensa do tempo longo, o filho que deixou de ser menino, o corpo que não responde aos impulsos da imaginação, da vontade, ou da vida habitual, tudo corresponde a uma contagem do tempo que passa: uma contagem com instrumentos que levam a súplica da ajuda às estrelas, ou à lentidão da clepsidra, ou à precisão dos relógios, ao serviço de uma igual exigência de os homens e as instituições terem igual medida do esgotar do tempo da sua circunstância.
Uma regularidade equívoca que ora serve para atribuir uma liberdade inviolada ao uso do tempo breve de cada um, ora serve a regularidade da submissão à cultura circundante herdada das gerações, ora serve a ideologia imposta pela violência que suprime a liberdade do projecto de gastar a vida.
Talvez aquilo que mede o tempo breve de cada ser vivo seja diferente de todas as medidas relacionadas com o tempo da circunstância que o rodeia, e que tem tão variadas origens, sinais, e constrangimentos: talvez esse tempo seja medido, pelo espírito vigilante, em unidades de vida, de que uma clepsidra interior o vai informando num diálogo com formatos alternados de boa leitura e de falta de transparência.
Mas uma informação constante do tempo feliz, do tempo de dores, do tempo de esperança, do tempo de angústia, do tempo perdido, do tempo sonhado, mas sempre das unidades de vida que a clepsidra vai contando em ritmo esgotante das reservas: e sempre em relação com os projectos de vida, numa avaliação de objectivos cumpridos em tempo bem gasto, ou de luta para estender o tempo, para moderar o dispêndio do tempo, para acelerar o aproveitamento do tempo, porque as metas estão longe, os riscos não foram eliminados, a mão estendida cai sem atingir a meta porque o tempo se esgotou.
Esta dialéctica entre as unidades de vida disponíveis, e os projectos de intervenção com esse capital de tempo breve, com a certeza da morte que esgota o tempo, mobiliza o saber e o saber fazer no sentido de ajudar a manter o ritmo da resposta, entre mais objectivos para que a morte não seja uma desistência antes de ser um ponto final ditado pela circunstância.
Uma circunstância em que progressivamente entra em exercício um tempo tríbulo social: uma parte dos vivos a ler um passado mais longo do que a perspetiva de mais intervenção; uma parte dos vivos a gerir o presente de todos, reformulando a circunstância dos outros; uma parte dos vivos animados por um sentimento de futuro urgente, a exigir que a circunstância tenha uma leitura acolhedora da criatividade pessoal.
Mas é seguramente a evolução da circunstância, caracterizada pela submissão aos sistemas organizados pela ciência e pela técnica, que acrescenta um desafio sem precedentes e alienante à criatividade pessoal, à programação do dispêndio das unidades de vida, e ao mesmo tempo desenvolvendo as capacidades de intervenção para assegurar o prolongamento da vida até ao ponto incerto de a chama animadora do espírito se apagar, impondo por vezes passagem pela condição vegetativa até à dissolução, um trajecto no qual a liberdade de renunciar, a piedade alheia de intervir para acelerar o fim, ou a submissão ao mistério da criação, disputam a opção entre directivas incompatíveis, e que apenas os valores resolvem, e a fé orienta.
Nesta data, uma das graves circunstâncias que afectam a relação entre o governo português, ou os governos ocidentais, e as sociedades civis, é o facto de contribuírem para a dissolução da solidariedade social apoiados no neoliberalismo repressivo em crescimento, por vezes alimentando um neoriquismo a fazer da ideologia, e o conflito das gerações, acusando os mais velhos de viverem do esforço dos mais novos, que aqueles, então, formaram deficientemente, e animando o progresso das ciências da saúde com uma luta de mercado pelo seu domínio económico, divisor da igualdade social.



Sem comentários:

Enviar um comentário