quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sobre a 'geração grisalha'


Adriano MOREIRA, A Geração Grisalha, in Memórias do Outono ocidental. Um Século sem Bússola, Almedina, Coimbra 2013, 11-24.

Para anteceder as páginas deste livro, que receio que mais se ocupa de sentimentos que de memórias dos factos que os condicionam, juntando textos já publicados ao acaso do tempo, e por isso com repetições, ocorreu-me revisitar as Cartas Morais de Lúcio Aneu Séneca, quando se ocupa das Vantagens da Velhice (Carta XII) e da chamada de atenção para o facto de que A vida é breve (Carta XLIX). No que toca a esta mais advertência do que conceito, dirige ao seu querido Lucílio, estas palavras: “O que vivemos é um ponto, e ainda menos que um ponto, e ainda por cima, esta coisa tão pequena, para maior engano, a Natureza a dividiu a fim de dar-lhe aparência de um prolongado espaço de tempo; de uma porção faz a infância, de outra a mocidade, de outra a adolescência, de outra uma certa descida da adolescência à velhice, e de outra a própria velhice”.
Mas por outro lado anotava, na primeira carta, as vantagens da velhice, visitando a sua casa velha e a desmoronar-se, apesar dos cuidados, mas ressuscitando-lhe recordações de cada um dos tempos já vividos, concordando em que “a vida é mais agradável quando já começa a decair mas ainda não chegou à decrepitude, e também quando está a ponto de findar creio que tem os seus prazeres, ou, pelo menos, nessa estação, em lugar de tais prazeres nos satisfazemos de não necessitar de qualquer deles”.
Este discurso individualista, que tem o corolário de recomendar lonjuras em relação à multidão, não insiste no serviço aos valores, que por exemplo Vieira, no Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma, pregado no ano de 1669, subordinou a este conceito - Quod debuimus facere, fecimus: “quem fez o que devia, devia o que fez: e ninguém espere paga de pagar o que deve. Se servi, se pelejei, se trabalhei, se venci, fiz o que devia ao rei, fiz o que devia à Pátria, fiz o que me devia a mim mesmo: e quem se desempenhou de tamanhas dívidas, não há-de esperar outra paga”.
Este gastar do tempo, tão dividido em épocas, foi visivelmente avaliado como um património imaterial legado às gerações futuras, e a lei evangélica estabelece o mandamento de os filhos honrarem pai e mãe, sem necessidade de ter explicitado o dever de os pais honrarem filho e filha, porque isso não precisa de ser lembrado.
Na cultura africana aprende-se que quando morre um velho, desaparece uma biblioteca, e muitos homens generosos, como Cornelio Nepote, cuidaram de registar as Vidas dos Varões Ilustres, sem que de si próprio tenha ficado certeza do lugar e data do nascimento.
Esta cultura dos maiores, foi a definição estruturante das comunidades, sobretudo ocidentais, até que a mundialização iniciada pelas navegações e descobertas evoluiu, apoiada na ciência e na técnica, para finalmente dar origem ao globalismo do nosso século XXI.

Tal globalismo traduz-se não apenas em erros graves, deslumbramentos de usos e costumes novos que fascinam a juventude, mas numa interdependência que teve pelo menos três efeitos poderosos no fenómeno da relação das gerações: primeiro, o avanço da longevidade, a tornar mais complexa a relação entre essas gerações, que hoje já exibem a categoria de quarta idade; depois, o facto de o avanço da ciência e da técnica exigir cada vez mais gente altamente qualificada, e menos gente para o desempenho das tarefas; finalmente, esta longa cadeia viva de gerações torna progressivamente distintas as concepções do mundo e da vida de cada uma delas, cada uma recordando ou vivendo o seu tempo, com valorações contraditórias entre os que veneram as concepções dos passados já diferentes de cada uma, e frequentemente conflituosas, com as concepções de futuro dos mais jovens.  

(cont.)


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