quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Sobre o habitus (II)


Sendo, na verdade, cada humano um fenómeno único e irrepetível, sempre guardará um espaço de liberdade e indeterminação que o diferenciará da estatística matemática (mesmo que, sem cair em excessos, ou idealismos, subjectivistas, sublinhemos que ele é, naturalmente, condicionado, nas suas opções, pelas estruturas sociais). Importa, neste âmbito, sublinhar que o habitus nunca é a réplica/mimética de uma única estrutura social, na medida em que é um acervo dinâmico de disposições, sobrepostas em camadas que grava, armazena e prolonga a influência dos/nos diversos ambientes sucessivamente encontrados na vida de uma pessoa.
Na explicitação de L. Wacquant, “o facto de o habitus poder “falhar” e ter “momentos críticos de perplexidade e discrepância”[1] quando é incapaz de gerar práticas conformes ao meio constitui um dos principais impulsionadores da mudança económica e inovação social. Deste modo, “só podemos, portanto, explicar essas práticas se colocarmos em relação a estrutura objectiva que define as condições sociais de produção do habitus (que engendrou essas práticas) com as condições do exercício desse habitus, isto é, com a conjuntura que, salvo transformação radical, representa um estado particular dessa estrutura”[2]. O habitus, reitere-se, é um sistema de disposições, ou seja, de tendências incorporadas nos (humanos) actores – em cada um de nós, portanto -, e que sustentam/presidem às suas (nossas) acções/práticas sociais. Disposições, ao mesmo tempo, estruturadas e estruturantes, pois que são determinadas pelas condições sociais mais estruturais presentes no processo de socialização (o modo e o meio como/onde fomos educados, os agentes que tiveram especial vinculação connosco inculcaram-nos, na acção, uma dada normatividade/um arbítrio cultural que nos fixa um horizonte de aptidões, ou inclinação, para algo), mas que, igualmente, concorrem para a determinação das práticas desses actores. Como sublinha J.L. Casanova, forjam, ainda, em representações sociais (mormente, sobre essas práticas)[3]. Interpretação/leitura das práticas/acções estão em estreito liame com as disposições adquiridas: aquela – a interpretação, a representação social das práticas – depende destas (disposições).



(cont.)


[1]Idem, p. 39.
[2]  ORTIZ E FERNANDEZ, Pierre Bourdieu. Sociologia. São Paulo, Ática, 1983, p. 65.
[3] Cf. J.L.CASANOVA, Uma avaliação conceptual do habitus, Sociologia – Problemas e práticas nº18, 1995, pp.45-68.

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