sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sobre o habitus (III)


Falar, portanto, de habitus é estabelecer que o individual, e mesmo o pessoal, o subjectivo é social, colectivo (Bordieu refere que "qualquer ação pedagógica é, antes de tudo, uma violência simbólica". Simbólica, porque não se cura, aqui, de uma dimensão física da violência; violência, ainda assim, porque imposta. E, completando, atente-se no facto de uma acção pedagógica só ser eficaz se acompanhada de autoridade legítima. Se a imposição estiver longe do arbitrário cultural de cada um, vai ser mais difícil tal adestramento).
Balizado o habitus no interior da conceptualização vinda de descrever, importaria, adicionalmente, procurar situá-lo face aos desafios das sociedades hodiernas e do modo como estas dialogam com/confrontam a sua caracterização. Em realidade, em múltiplos diagnósticos se tem oferecido uma imagem do nosso tempo como aquele que alberga, predominantemente, sociedades liquefeitas[1], onde os laços sociais se desvanecem, onde o fragmentário, o efémero, o perecível, o mutável adquirem especial preponderância (em detrimento do perene, do certo, do seguro, do previsível, do compromisso estável). Se uma comunidade é um laço de afectos[2], nem no interior de um mesmo meio social parece, em nossos dias, existir a convergência/comunhão de interesses e de propósitos de outrora (com uma coesão social muito questionada[3]). Neste sentido, a reprodução social, em trajectórias (pessoais/profissionais) bem menos lineares[4] do que em gerações precedentes, os habitus sucessivamente acrescentados de novas camadas (de pré-disposições) tornarão, eventualmente, a previsibilidade e as regularidades dos comportamentos mais sujeitas a uma maior complexidade de leitura (ainda que sem, de modo algum, obnubilar a capacidade explicativa que o conceito encerra, na dilucidação das práticas)[5].


[1] Cf. Z.BAUMAN, A vida fragmentada. Ensaios sobre a moral pós-moderna, Relógio D’Água, Lisboa, 2007.
[2] A. MOREIRA, O estado da nação, TSF, 10/11/13.
[3] Pense-se, por exemplo, nas dificuldades que os sindicatos vêm enfrentando num mundo pós-revolução industrial, ou no modo como a globalização vem afectando o tipo de filiações político-partidárias mais tradicionais (o caso de antigos votantes do PCF que se têm deslocado, eleitoralmente, para a Frente Nacional, em França, tem sido dado como exemplo-escola).
[4] Cf.J.M.PAIS, Ganchos, tachos e biscates. Jovens, trabalho e futuro, Ambar, Lisboa, 2001. A ruptura da comunhão de interesses, e até de linguagem, entre classe média e trabalhadores, vem sendo apontado como factor crucial para a perda de força de partidários da social-democracia que, conjuntamente com a democracia-cristã, forjaram, na essência, o contrato social que vigora na Europa e que constatamos muito ameaçado. Sobre esta quebra de interesses, leia-se, a título de exemplo, J.A. FERNANDES, A esquerda sem povo, Público, 24/11/13, in http://www.publico.pt/mundo/noticia/esquerda-sem-povo-1613668, consultado a 24/11/13. Acerca do pacto social europeu, engendrado, em simultâneo, por sociais-democratas e democratas-cristãos, leia-se T.JUDT, Pós-Guerra, Edições 70, Lisboa, 2010.
[5] M. WIEWIORKA, Nove lições de sociologia. Como abordar um mundo em mudança?, Teorema, Lisboa, 2010, mostra-nos como tendemos a descrever a nossa época como um tempo de feroz individualismo, contrapondo-o às identidades colectivas (a que antes, dizemos, pertencêramos). E, no entanto, observando de perto, o que verificamos é que “o individualismo moderno alimenta as identidades colectivas, não se limita a miná-las ou a destrui-las. Antigamente, no seio das sociedades tradicionais, quando as identidades se reproduziam, as pessoas singulares não tinham outra hipótese: o grupo, em nome da tradição, submetia toda a gente à sua lei e o indivíduo nunca era mais do que um átomo de um corpo social que se pretendia perpétuo. Mas hoje cada vez mais as pessoas singulares querem poder escolher a sua identidade, incluindo colectiva. Envolvem-se (e assim querem também poder desligar-se) enquanto indivíduos para partilhar por obra da sua decisão individual os valores do grupo a que consideram pertencer (…) Dantes, um jovem era muçulmano porque os seus pais, os seus avós, etc., o eram; hoje, e muito especialmente nas democracias ocidentais, ele explica ao investigador que o entrevista que a sua religião é fruto de uma decisão tomada individualmente”.

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