sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sobre o habitus (IV)


Se as instituições que, tradicionalmente, (con)formavam a pessoa – Família, Igreja, Escola, Forças Armadas, Estado – se encontram, em maior ou menor medida, em tempo de globalismo, vítimas de uma erosão que, entre outros, os ‘meios de desinibição de massas’ (P.Sloterdijk) proporcionam (e a eventual falha do projecto humanista, ‘ler amansa a alma’), em todo o caso cremos que aquela que documentos - seculares/liberais – como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, consideram a ‘célula fundamental da sociedade’ - a família - continua, mau grado todas as tentações alarmistas, a exercer um papel determinante na estruturação da pessoa. Questão diversa, e que emerge com grande premência e pertinência, é a de perceber as mutuações que a família vem incorporando. A célula da sociedade é a família; mas a família, nas décadas mais recentes, mudou. E mudou no sentido de considerar um pluralismo de modelos e experienciações - recorte de vivências familiares - que a afastam de uma aproximação monolítica (eloquentemente, quanto à nova situação vivenciada, o Papa Francisco acaba de exortar os católicos de todo o mundo a pronunciarem-se sobre o modo de acomodar, pastoralmente, tais transformações). Muito interessantemente, um conjunto de sociólogos chega, inclusive, a notar como, face às alterações verificadas no interior da família – aumento dos divórcios, diminuição da natalidade, fragilidade dos laços entre as pessoas - do ano 2000 até agora, passámos de três/quatro etapas na experiência vital de cada um, para oito ou nove momentos distintos[1]. Neste contexto, afigura-se-nos oportuna a sugestão de J.L. Casanova, quanto à contemplação da possibilidade de introdução, no nosso aparelho teorético, com vista à completa apropriação da complexidade hodierna (nomeadamente, na apreciação do habitus) de “uma noção como a de interhabitus, [que] introduzida por José Madureira Pinto, [e] centrada numa preocupação de revelação da dimensão relacional do habitus, potencia, igualmente, um entendimento mais dinâmico e menos essencialista da matriz de disposições”.


[1] Cf. Fernando Vela López (or.)  Atentos a los giros del mundo, San Esteban, Salamanca, 2006, p.185: um período, curto, em que a criança vive com os dois pais; momento, mais longo, em que a criança está, apenas, com a mãe (separada ou divorciada); tertio, adolescente vive com a mãe recasada e seu companheiro (padrasto do adolescente); quarta experiência, o jovem vive em união de facto com a sua noiva; quinto momento, casamento; sexto período, divórcio; sétima etapa, solidão e novo casamento; oitavo passo do ciclo vital, viuvez e ida para um lar ou residência da terceira idade; nona experiência, serão visitados, esporadicamente, por filhos e/ou netos. A consulta desta obra foi-nos sugerida pela leitura de B.DOMINGUES, A família: a felicidade controversa?, Público, 24/11/13, in http://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-familia-a-felicidade-controversa-1613654, consultado a 24/11/13.

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