quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sobre o habitus


Estruturas, habitus e práticas – Síntese, comentário, crítica (para Pierre Bordieu)

Conceito que a genealogia (histórica) faz remontar ao hexis de Aristóteles e à posterior reapropriação escolástica medieval por Tomás de Aquino, a noção de habitus adquire grande relevância (e renovação) sociológica, no séc.XX, (nomeadamente) no pensamento de Pierre Bordieu. Nele, e acometidos, em particular, do proposto em “Estruturas, Habitus e Práticas”[1], a partir de Esquisse d'une théorie de la pratique, impõe-se-nos como mediadora categoria, que, podendo traduzir-se por “sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de acções – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas, que permitem resolver os problemas da mesma forma, e às correcções incessantes dos resultados obtidos, dialecticamente produzidos por esses resultados”, é susceptível de transcender uma redutora antinomia assente numa (pretensa) oposição entre objectivismo e subjectivismo. Em realidade, colhendo, com acuidade, o “modo de engendramento das práticas”, com “dialéctica da interioridade e exterioridade”, isto é, apreendendo a “interiorização da exterioridade e a exteriorização da interioridade”, Bordieu, na composição e explicitação do habitus, supera a lógica dicotómica indivíduo-sociedade, na medida em que capta o modo como esta última se encontra depositada nas pessoas, através de disposições duráveis, capacidades treinadas e propensões estruturadas para pensar, sentir e agir de modos determinados que as orientam nas suas respostas (criativas) aos constrangimentos e solicitações do seu meio social envolvente. No processo de educação/socialização do indivíduo/pessoa é passado/transmitido, de modo prático/na acção, um padrão, que este gravará, e que, perdurando, sem ser estático, lhe permite, em situações a que tenha que responder – quando não em casos iguais, procedendo à analogia – encontrar um critério, mesmo que resultando de um arbitrário cultural – o critério poderia não ser, necessariamente, aquele, mas foi esse o adquirido -, para responder (de um modo que toma por adequado). Atente-se que o habitus não resulta de uma aptidão natural, mas social, variando no tempo, lugar e com a distribuição do poder; “é transferível para vários domínios de prática, explicando a homogeneidade, por exemplo, em vários domínios de consumo – na música, desporto, mobília, ou escolhas políticas – no interior e entre indivíduos da mesma classe e que fundamenta os distintos estilos de vida; é durável, mas não estático ou eterno, pois que as disposições, socialmente construídas, podem ser corroídas, contrariadas, ou mesmo desmanteladas pela exposição a novas forças externas”[2]. Em suma, o habitus fornece, simultaneamente, “um princípio de sociação e individuação: sociação, porque as nossas categorias de juízo e acção, vindas da sociedade, são partilhadas por todos aqueles que foram submetidos a condições e condicionamentos sociais similares (o habitus masculino, o habitus nacional, o habitus burguês); individuação, porque cada pessoa, ao ter uma trajectória e uma localização únicas no mundo, internaliza uma combinação incomparável de esquemas”[3].

(cont.)

[1] Cf. ORTIZ E FERNANDEZ, Pierre Bordieu. Sociologia, São Paulo, Ática, 1983, p.60-81.
[2]L.WACQUANT, Esclarecer o Habitus., Sociologia, vol. 14, 2004, p.37. Note-se, nomeadamente, como, constatamos empiricamente, os professores do ensino superior tendem a afirmar preferir, quanto ao gosto musical, música clássica. De tão frequente, a resposta poderá evidenciar, justamente, uma conformidade/um conformismo social que não relevará, em rigor, de uma espontaneidade, ou não remeterá, em exclusivo, para uma opção de tipo individual/singular (mas, também, social).
[3] Idem, p.38.


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