terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sobre a 'teoria dos três mundos', de Popper (II)


Se proceder ao distinguo entre “Mundo 2” e “Mundo 3” poderá, prima facie, afigurar-se-nos como difícil mister, tomemos a dicotomia subjectivo/objectivo como critério pertinente de separação de fronteiras: o campo dos processos de pensamento subjectivos seria o do “Mundo 2”; o dos conteúdos de pensamento objectivos enformaria o “Mundo 3”. Todavia, Popper vai mais longe, situando, suplementarmente, problemas e argumentos neste “Mundo 3” (Popper, 2001, p.44).
Acometida ao filósofo a tarefa de demonstrar e desenvolver, pelo exemplo, a tese proposta, assentará Karl Popper, na imagem do arranha-céus – por um lado – e na descoberta dos números primos – por outro -, a dilucidação da solução que nos oferece em chave de leitura realista das relações corpo-mente.
Desta sorte, sublinhemos como o arranha-céus é construído com base em um plano, tributário, por sua vez, de uma, ou várias, teorias (“Mundo 3”) que afectam a consciência (“Mundo 2”) dos técnicos (arquitectos) que as manejam até ganharem operatividade no terreno físico (“Mundo 1”), onde podemos ver a laborar escavadoras, tijolos, pedra. Sobejam, do exercício vindo de descrever, consequências de montante no âmbito da pesquisa promovida: desde logo, o “Mundo 3” é real; em parte, autónomo e independente do “Mundo 2”; o “Mundo 3” exerce um efeito indirecto sobre o “Mundo 1”, através do “Mundo 2”; o exemplo evidencia a realidade dos três mundos (Popper, 2001, p.44/45)
Visando refutar, com assertividade, os filósofos que entendem existir os “nossos pensamentos”, mas não os “conteúdos em si” - trata-se, para tais pensadores, de abstracções, fantasias mentais -, a matemática é convocada a debate. A soma e a multiplicação são invenções humanas, mas as leis da soma e da multiplicação, não – sustenta Popper; do mesmo modo, os números primos – números indivisíveis que são o produto de si próprios pela unidade - não foram inventados, mas descobertos na sequência do acto de contar. Há uma existência em si, autónoma, independente destes conteúdos (leis da soma ou multiplicação, ou números primos). Números primos, aliás, analogia produzida, como a montanha do Everest, cuja existência é causa da sua descoberta (pela equipa topográfica indiana). 


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