quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sobre a 'teoria dos três mundos', de Popper (III)


Há, em síntese, objectos que tanto pertencem ao “Mundo 3” como ao “Mundo 1” e outros que tanto pertencem ao “Mundo 2” como ao “Mundo 3”. Finalmente, há objectos que pertencem, exclusivamente, ao “Mundo 3” – ex: uma prova ainda não descoberta na qual um matemático está hoje a trabalhar e amanhã descobrirá (Popper, 2001, p.48).
Como os processos de pensamento no “Mundo 2” se encontram, presumivelmente, ligados aos acontecimentos no cérebro e, logo, a acontecimentos físicos no “Mundo1”, o problema corpo-mente está, em absoluto, lançado; quer dizer, e numa palavra: como, afinal, os nossos processos de pensamento se encontram ligados aos acontecimentos no cérebro no “Mundo 1”?
Sistematizando, com James Rachels (2009), diremos que ao problema corpo-mente foram oferecidas várias soluções:
i)o dualismo cartesiano – corpo e alma são substâncias diferentes (corpo: substância material; alma: substância imaterial; os factos físicos são factos sobre o corpo, enquanto os factos mentais são factos sobre a mente). A grande objecção que aqui se coloca “é que parece inconcebível que uma mente não física possa interagir com um corpo físico” (Rachels, 2009, p.115). Esta teoria, no séc. XX, “enfraqueceu por não se ajustar à imagem científica emergente da natureza das pessoas (…) a teoria desapareceu em grande medida da ciência e da filosofia” (Rachels, 2009, p.116/117);
ii) uma primeira teoria materialista - o Behaviorismo: uma vasta colecção de átomos é tudo o que (nós, humanos) somos – os nossos corpos não estão ligados a parte fantasmagóricas, afirma o materialismo. Os behavioristas buscam padrões de estímulo e resposta e formulam leis gerais que nos dizem como o comportamento é moldado por inputs físicos. Entre destacados defensores desta perspectiva, Gilbert Ryle sustentou não passarem os estados mentais de comportamentos: “estar furioso é ser agressivo, gritar, dizer palavrões, atacar ou virar as costas a alguém” (Rachels, 2009, p.119).
Depois de meio século de popularidade, também o behaviorismo seria rejeitado: cada um de nós tem consciência de ter percepções e/ou pensamentos ainda que não esteja a ocorrer qualquer comportamento; é insondável o padrão de comportamento inerente, p.ex., a ouvir uma composição de Beethoven; duas pessoas podem comportar-se de modo idêntico, ainda que repousem em estados mentais diferenciados;
iii) a segunda teoria materialista: identidade mente-cérebro: os acontecimentos do cérebro causam experiências mentais. As experiências do médico Wilder Penfield corroboravam a convicção de que a mente era o cérebro. Esta identificação foi vista como “uma das grandes descobertas da neurologia do século XX” (Rachels, 2009, p.123). Os acontecimentos mentais não são fantasmagóricos (como foi lida a hermenêutica cartesiana da relação corpo-mente), nem comportamentais (como defendiam os behavioristas), mas (são) neurológicos.
Se ‘sentir dor’ é semelhante a ‘ocorrências neuronais’, então, p.ex., pensando em outras formas (possíveis) de vida, com (existência de) outros seres, não compostos por neurónios, noutro planeta, a conclusão seria que a dor, neles, não existiria, o que é uma extrapolação que parece poder ser precipitada.

Tudo sopesado, “por agora, ninguém sabe como resolver o problema mente-corpo” (Rachels, 2009, p.136).


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