domingo, 16 de fevereiro de 2014

Vítor Gaspar







A partir de Vítor Gaspar por Maria João Avillez:



Vítor Gaspar é filho único de uma pai economista e de uma mãe licenciada em Direito, em uma família onde os resultados escolares adquiriam centralidade. Vítor é melhor aluno universitário do que de Liceu, onde só estudava quando era preciso, o que era raro (mas onde, de acordo com a entrevistadora, obteve prémios pelos resultados, tal como na faculdade). Adorava escrever.
Leu Lenine em espanhol (a aversão pelas traduções deve, pois, ter sido posterior) e Marx, depois de 1974. A família ficou muito contente no dia em que o Estado Novo caiu. Ele, por sua vez, não estava para ficar um ano à frente da TV a fazer o propedêutico: por isso foi para a Católica, aos 17 anos.
Gostava da política? Sim, para fazer apostas a ver se acertava em quem seria o vencedor – o evitamento das filiações políticas pessoais, ao longo dos anos, terá múltiplas variantes. Escolhia ser o ‘espectador imparcial’ (Adam Smith): tal como quando estava no terceiro anel (temos benfiquista), em que apreciando muito o jogo não se via como jogador, assim pensava a política.
É verdade que aceita ter ido “a uns comícios no tempo do Cavaco” (supõe-se que a comícios de Cavaco), mas também a festas do Avante (para ouvir Chico Buarque). Na praia, no Algarve, chegou a estar ao pé de Álvaro Cunhal, figura que o impressionava e interessava enquanto intelectual e da contradição dessa expressão com a de “político totalitário”. Muito instado pela entrevistadora, revela a opção por Mário Soares, frente a Freitas do Amaral, nas Presidenciais de 1986. Por iniciativa própria, falara na opção por John Kerry, ou, melhor, pelo desejo da derrota de Bush.
Adam Smith conta-se como um dos filósofos que mais aprecia, tal como Schumpeter (o que não surpreende), mas detalhando acerca do espectador imparcial nota-se ter lido o último Amartya Sen, que junta, numa única resposta, com Hume ou Hayek, mas também Foucault (para surpresa da entrevistadora).
O pai de três filhas (que quis que estas vivessem em Portugal), “controlador” e “perfeccionista”, “muito exigente” consigo e com os outros, habituou os portugueses a falar de-va-ga-ri-nho. E por que é que assim fala? Por um lado, porque gosta de pensar antes de falar “e isso leva tempo” e, por outro, porque tendo estado vários anos no estrangeiro, tinha, agora, mentalmente, de “traduzir” o que pretendia dizer.
Apreciador de Goya, diz que prefere o caso concreto a “grandes sistemas” (de pensamento), pois foi em nome destes que muitos intelectuais apoiaram o ‘estalinismo’.
Baptizado, não é religioso. Uma questão, a religiosa, que nunca o despertou muito. “Há questões muito importantes em que não penso”, aduz.
Quer continuar a investigar na área da economia política, na fronteira, precisamente, entre o económico e o político, mantendo, nessa tarefa, a vontade, a determinação e ambição, forma mental que muito deve a António Borges.

Autores que destaca, na nossa língua, este leitor compulsivo: Eça, Ruben A., Gonçalo M. Tavares e Pessoa.


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