quarta-feira, 12 de março de 2014

Bunker Roy, uma escolha diferente (II)



TIAGO CARRASCO, (entrevista) Bunker ROY “A obsessão pelo diploma está a arruinar o sistema social europeu”, in Expresso. Revista, 08.03. 2014, 52-59.



Como é que começou o Barefoot College?
O meu trabalho começou em 1967 e prolongou-se até 1971. Comecei por cavar buracos de dezenas de metros, colocar explosivos e fazê-los rebentar para encontrar água para irrigação. Foi também por essa altura que deixei de usar vestuário ocidental e comecei a usar apenas roupas tradicionais. E durante este período ainda me tornei campeão nacional de squash. Era campeão e escavava buracos. Foi uma época de mudança. E o Barefoot só nasceu devido a esses cinco anos de exposição à pobreza e às necessidades básicas da população.

O que é que um ser humano tem de ter para abdicar de tudo e dedicar-se a uma causa como a sua?
Uma combinação de compaixão e coragem. É obrigatório ter as duas na mesma medida. E ambas têm de ser testadas no terreno. Viver no mundo rural e isolado não é para quem quer. Quando alguém me pergunta o que tem de fazer para viver numa aldeia, eu digo-lhe para não tirar nenhuma licenciatura, nem mestrado, nem workshop, nem programa de voluntariado. Digo para escolher uma aldeia, nem que seja a 10 quilómetros da cidade, e experimentar viver lá. E aprendam. Não sejam arrogantes ao pensar que têm algo a ensinar, sejam humildes ao pensar que têm muito a aprender. Não há garantidamente nenhum curso no mundo que nos prepare para enfrentar esta realidade.

Porque é que escolheu Tilonia, no Rajastão, para se estabelecer?
O homem que me ensinou a perfurar o solo era de Tilonia. Na primeira vez que fui à sua aldeia, em 1967, nunca pensei que 40 anos mais tarde estaria aqui. Não foi planeado. Podia ser qualquer aldeia com problemas de água, luz, com necessidades básicas, tensão, discriminação, conflito, violência...Tilonia tem tudo isso. Há 40 castas diferentes e 40 problemas diferentes. Portanto, temos de arranjar diferentes soluções para os membros da comunidade.

E também porque alguns engenheiros lhe disseram que era impossível encontrar água numa zona tão desertificada...
Tornou-se mais desafiante porque muitos trabalhadores qualificados me disseram que não havia nada que se pudesse fazer. Então, fui ter com pessoas da aldeia, que me disseram que sim, que era possível. Era tudo o que eu precisava. Os melhores especialistas são os locais. Há uma série de profissionais à solta nas aldeias cujo conhecimento não coincide com o dos profissionais que saem das universidades. Não se podem misturar os dois tipos de conhecimento: é como água e azeite. Apercebi-me nesse momento que para um problema rural só existem soluções rurais. Não se pode ter uma solução urbana para um problema rural. Pelo menos que se respeite o facto de estas pessoas viverem há milhares de anos na mesma aldeia e de saberem resolver os seus problemas. E é essa a razão que me leva a discordar da forma como se trabalha no desenvolvimento.

Porque é que prefere recrutar mulheres, especialmente mães e avós?
Porque os homens não param, são migrantes compulsivos. Se um homem de qualquer aldeia receber formação, o seu primeiro impulso é abandonar a aldeia à procura de emprego. É também por isso que não damos diplomas. Os diplomas são um incentivo à emigração. Entregue-se um papel a qualquer homem e ele fica logo a pensar que consegue um emprego melhor na cidade. Quando o Estado indiano abre um concurso, há cerca de 200 mil candidatos com mestrado ou doutoramento a candidatarem-se ao mesmo posto. É ridículo!

Qual é o seu método de recrutamento?
Primeiro, encontramos por todo o mundo aldeias não eletrificadas e afetadas pela pobreza, sejam elas do Quarto Mundo, do Terceiro ou mesmo do Primeiro Mundo. E, em todo o lado, os locais sempre resolveram os problemas com as suas próprias mãos, porque nem o Governo nem mecenas internacionais foram alguma vez capazes de ajudá-los. Usamos esse instinto de sobrevivência: fazer algo que eles possam assimilar e pôr em prática. O modelo Barefoot acredita que se deve atuar por baixo. Acredita que as regras não devem ser ditadas mas sim estabelecidas pela força conjunta da comunidade, fazendo com que acreditem que o que estão a fazer é para seu próprio benefício e não para enriquecer alguém de fora. Ao trabalhar dessa forma, temos a sua tolerância, a sua amizade e a sua disponibilidade para ouvir. Mas ninguém tem esses atributos nas áreas urbanas; a vida corre a 200 quilómetros à hora, e quando aqui chegam encontram uma vida a 0 quilómetros à hora. Nada se mexe, nada funciona. E têm de se adaptar. Não são os aldeões que têm de se adaptar ao forasteiro, é o forasteiro que tem de se adaptar a eles. O Barefoot respeita este processo: de baixo para cima. É o fundamento número um. E, por isso, todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) vão falhar: porque foram feitos de cima para baixo. Nas aldeias nem se sabe o que são os ODM. Ninguém sabe!

(cont.)





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