segunda-feira, 10 de março de 2014

Bunker Roy, uma escolha diferente







TIAGO CARRASCO, (entrevista) Bunker ROY “A obsessão pelo diploma está a arruinar o sistema social europeu”, in Expresso. Revista, 08.03. 2014, 52-59.

Revolucionário, virou costas a uma vida de luxo e fundou em 1972 a única universidade do mundo que funciona exclusivamente com energia solar, não emite diplomas nem aceita colaboradores licenciados: alunos iletrados são formados por pessoas também analfabetas. Considerado em 2010 uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”, Sanjit “Bunker” Roy explica que um certificado de habilitações não é tudo. Bem pelo contrário. Entrevista de Tiago Carrasco, Índia


Em Tilonia, uma pequena aldeia nas entranhas da árida província do Rajastão, no noroeste da Índia, 40 mulheres aprendem a construir painéis solares numa casinha térrea que as abriga do sol abrasador. São todas mães ou avós, não sabem ler nem escrever e nasceram em aldeias miseráveis de alguns dos países mais pobres do mundo: Sudão, Haiti, El Salvador, ilhas Salomão. Em seis meses, através de um sistema de cores e sons lecionado por formadores indianos, também eles iletrados, saberão obter energia a partir do sol e poderão eletrificar as casas das suas aldeias. Este é apenas um dos milagres concretizados pelo Barefoot College (Universidade dos Pés Descalços). Em 1967, com 22 anos, Sanjit “Bunker” Roy virou costas a uma vida de luxo — era membro de uma das famílias mais ricas de Nova Deli e campeão nacional de squash — para ajudar a população da região de Bihal a resistir à fome. Fixou-se nas aldeias, aprendeu a cultivar e a esburacar o solo à procura de água. A mãe, em estado de choque, deixou de lhe falar. Mas Roy já não queria saber da vida em Deli. Em 1972, fundou em Tilonia o Barefoot College. Hoje, o Barefoot é a única universidade do mundo a funcionar exclusivamente com energia solar e fixou centenas de pessoas na região. Não emite diplomas, não aceita colaboradores licenciados nem voluntários estrangeiros e recruta entre as castas e as classes mais desfavorecidas. Roy criou uma alternativa ao sistema de ensino e de desenvolvimento. Privilegia uma formação a partir da base, entre iguais, dando as ferramentas necessárias às camadas mais desfavorecidas, especialmente às mulheres, para praticarem um ofício e impulsionarem a comunidade. O modelo dos Pés Descalços espalhou-se pelos cinco continentes e é cada vez mais adotado por países saturados de assistir à emigração dos seus melhores trabalhadores. As mulheres formadas no Barefoot não emigram; ficam nas suas aldeias e propagam o conhecimento adquirido. Numa altura em que cada vez mais portugueses regressam à vida rural, “Bunker” Roy, de 68 anos, defende a adoção do modelo Barefoot para responder às necessidades da nova população rural e criar trabalho. No seu escritório em Tilonia, o fundador do Barefoot explica ao longo de uma conversa de 68 minutos como a sua utopia foi ganhando forma até ser respeitada em todos os cantos do planeta. Figura de proa na Índia, considerado em 2010 uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time” e um nome apontado por alguns ao Prémio Nobel da Paz, Roy descarta qualquer idolatração da sua imagem. Quer que o Barefoot seja de todos os que queiram aprender e não precisem de um diploma
para o provar.

Costuma dizer que quase se destruiu por ter sido educado em colégios de elite. Porquê?
Porque a educação na Índia está completamente desfasada da realidade. É uma educação britânica. A escola que eu frequentei era muito elitista, muito cara e muito snobe. É o tipo de escola de onde saem os primeiros-ministros, os ministros e os presidentes. Estas escolas são feitas de modo a que quem lá estude consiga um bom trabalho, saia da Índia, faça bom dinheiro. Mas nunca nos dão a capacidade para comunicar com os indianos pobres. Se eu não tivesse sido exposto à realidade da Índia rural, aquela educação tinha-me destruído. Quase me destruiu.

Nessa altura era campeão nacional de squash. Como é que um rapaz que tinha tudo se interessou pelos mais pobres?
Eu não estava preparado para o que vi nas áreas rurais. Foi um choque. Fiquei revoltado por me terem impedido de testemunhar o que se passava nas zonas mais isoladas. Gandhi dizia que a Índia vivia nas suas aldeias e tinha toda a razão: ainda hoje, a Índia não vive nas cidades. Então, nasceu em mim uma vontade de saber que Índia era esta. E o que vi chocou-me. Era outro mundo. As pessoas viviam com condições do século XIX ao lado de outras que já viviam no século XXI. Foi um contraste absurdo para o qual não estava minimamente preparado.

Mas porque é que não ficou em Deli a jogar squash e no conforto da sua vivenda?
A região de Bihal estava a passar um período de fome, e eu quis saber o que se passava. Inicialmente, fui com amigos que também queriam ajudar. Mas nenhum de nós estava consciente do que ia ver. Quando te deparas com a fome pela primeira vez, quando vês alguém morrer, quando és colocado perante um sofrimento atroz...entras em estado de choque. Fez-me pensar em quem eu era, no tempo que tinha desperdiçado, em tudo aquilo para o qual tinha sido educado. Tornou-me uma pessoa diferente. Ao contrário dos meus colegas, que se tornaram embaixadores, diplomatas, banqueiros ou administradores de grandes multinacionais, eu preferi ficar a viver nas aldeias.

Qual foi a reação da sua família?
Ficou chocada. Nunca aceitaram que eu me fosse embora. Admitiam que fosse durante um fim de semana, durante quatro ou cinco dias, mas jamais acreditaram que eu pudesse dedicar a minha vida às gentes das aldeias. Ficaram chateados. A minha mãe deixou de falar comigo.

E como é que os aldeões reagiram quando viram um miúdo rico da capital instalar-se na aldeia?
Com muita curiosidade e desconfiança. Perguntavam o que havia de errado comigo, o que lhes estava a esconder. A grande dúvida deles era: “O que faz um indivíduo ajudar-nos se não temos nada para lhe dar em troca?” Habituaram-se ao longo de séculos a serem visitados por estrangeiros que os queriam explorar. Viram-me como um símbolo dessa exploração, porque eu vinha do mesmo meio. E levei muito tempo a esbater essa desconfiança. Mesmo hoje, sinto que algumas pessoas ainda pensam que eu ando aqui a tramar alguma.


(cont.)

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