quarta-feira, 5 de março de 2014

I Guerra Mundial: como foi possível?




Como é que a Europa pôde fazer isso a si própria e ao mundo? São muitas as explicações possíveis – tantas que é difícil decidir qual ou quais são válidas. Para começar, a corrida às armas, os planos militares rígidos, a rivalidade económica, as guerras comerciais, o imperialismo, com a sua competição por colónias, ou os sistemas de alianças que dividiram a Europa em campos inimigos.
As ideias e as emoções atravessaram frequentemente as fronteiras nacionais: o nacionalismo com os seus detestáveis acompanhantes – o ódio e o desprezo pelos outros; o medo, de perdas ou da revolução, de terroristas e de anarquistas; as esperanças de mudança ou de um mundo melhor; as exigências impostas pela honra e a virilidade, que implicavam não recuar nem parecer fraco; ou o darwinismo social que classificava as sociedades humanas como se fossem espécies e promovia a fé não só na evolução e no progresso mas também na inevitabilidade da luta. Já para não falar do papel de cada uma das nações e das suas ambições: a ambição das que atravessavam um período de ascensão, como a Alemanha e o Japão; os receios das que se encontravam em declínio, como a Grã-Bretanha; a vingança no caso da França ou da Rússia; ou a luta pela sobrevivência da Áustria-Hungria. No seio de cada nação, havia também pressões internas: um movimento de trabalhadores em ascensão ou forças claramente revolucionárias, a reivindicação do direito de voto das mulheres ou da independência das nações dominadas ou conflitos entre classes, entre crentes e anticlericais ou entre militares e civis. Como é que todos estes factos desempenharam um papel na manutenção de uma longa paz na Europa ou a arrastaram para a guerra?
As forças, as ideias, os preconceitos, as instituições, os conflitos são, sem dúvida, importantes. Mas restam ainda os indivíduos, que afinal não eram assim tantos, que tinham de dizer sim, avancemos e desencadeemos uma guerra, ou não, temos de parar. Alguns eram monarcas hereditários, detentores de um grande poder – o kaiser da Alemanha, o czar da Rússia ou o imperador da Áustria-Hungria; outros – o Presidente de França, os primeiros-ministros da Grã-Bretanha e de Itália – estavam inseridos em regimes constitucionais. Olhando para trás, foi uma tragédia, para a Europa e para o mundo que, em 1914, nenhum dos principais actores fosse um grande líder com a imaginação e a coragem suficientes para se opor firmemente às pressões que se acumulavam e conduziam à guerra. De certo modo, qualquer explicação de como surgiu a Grande Guerra deve reflectir um equilíbrio entre as grandes correntes do passado e os seres humanos que nelas oscilavam mas que, por vezes, mudaram a sua direcção.
É fácil desistirmos e optarmos por dizer que a Grande Guerra era inevitável, mas trata-se de uma maneira de pensar perigosa, especialmente num tempo como o nosso que em alguns sentidos, mas não em todos, se assemelha ao mundo desaparecido dos anos que precederam 1914.


Margaret MacMillan, A guerra que acabou com a paz, Temas e Debates, Lisboa, 2014, p.22-23.


Sem comentários:

Enviar um comentário