segunda-feira, 10 de março de 2014

Na demanda do bom professor (IX)


Este, o professor, que numa sociedade fragmentada, com os laços liquefeitos, torna o afecto e a ternura tão temidas – qualquer afago lido, em sociedades onde falta o valor confiança no outro, com interpretação pejorativa; valor, o da confiança, muito reduzido em Portugal – quanto necessárias e que inexistentes podem levar ao pior dos efeitos (a imagem da adolescente que se suicida, quando o professor lhe nega, no fundo, o abraço, com medo de ser mal compreendido pelos outros docentes e pelos discentes, quando esta tanto necessitava daquele ponto de vinculação e conforto, face a outros problemas existenciais, em O substituto, filme do realizador Tony Kaye, continua a atravessar-nos; se, em O clube dos poetas mortos, de Peter Weir, e apesar das advertências expressas na recente releitura de Henrique Raposo, a sala era assaltada pelo professor idealista, em busca de contornar os códigos de uma sociedade e escola ainda muito hierarquizadas e, portanto, a dimensão de sonho ainda se encontrava presente, a obra de Tony Kaye transporta-nos já para o seio de uma sociedade profundamente cínica e que, para usar a nomenclatura do Papa Francisco, já não sabe chorar, nem tem o ‘sentido da carícia’).
Voz encantatória e magnética – irreproduzíveis, em texto, as aulas repletas de alunos, de Heidegger, porque o modo como eram ditas fazia parte do conteúdo mesmo destas; ética e estética umbilicalmente ligadas, aqui, diz Steiner -, cadência de passeio de mestres antigos, valorização da memória. Recordando Bacon – ‘ler torna o homem completo, a conversa fá-lo expedito, e a escrita, preciso’ -, o doutor Johnson (2014) deixou-nos o derradeiro inciso:

“é sempre razoável ter a PERFEIÇÃO em vista, de modo que possamos avançar para ela, embora sabendo que nunca a poderemos alcançar” (p.104).



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