terça-feira, 4 de março de 2014

O que está em causa





O artigo de Peter Wise, no Financial Times, a que se alude no post anterior e que tanto furor fez entre a maioria – desde logo, pelo título: O herói surpresa da zona euro – principia, porém, pelas lágrimas vertidas, diariamente, no aeroporto da Portela com a partida de muitos portugueses – “As despedidas com lágrimas tornaram-se uma imagem comum no aeroporto da Portela, em Lisboa. Três anos de austeridade castigadora e de recessão profunda causaram um êxodo que leva cerca de 200 jovens licenciados a sair do país por dia” -, passa, é certo, pelo sucesso das exportações, reivindica a reforma no âmbito do mundo laboral – “A prioridade tem sido o mercado laboral, onde as indemnizações por rescisão foram reduzidas, os despedimentos foram facilitados, o número de dias de trabalho foi aumentado em sete por ano, a duração do subsídio de desemprego diminuiu e o alcance das convenções colectivas de trabalho. O salário médio anual caiu de 16.760 euros em 2010 para 16047 em 2012” -, mas não deixa de concluir olha, verdadeiramente, a realidade: “Quando terminar formalmente, em Junho, o árduo programa de ajustamento irá deixar um rasto de devastação: dezenas de milhares de empresas faliram, os salários e pensões foram espremidos, as desigualdades agravaram-se e vidas foram estragadas pelo desemprego de longo prazo”.
Escreve o articulista que com a reforma no mercado de trabalho, Portugal ganhou competitividade em zonas do planeta onde antes não tinha as quotas de mercado que hoje alcança: Brasil, Rússia e países africanos.
O preço – o limite do preço, a sua razoabilidade – a pagar para essa competitividade é que nunca é discutido, porque, além de, muitas vezes, se assinalar a falta de pensamento europeu em muitos dos nossos agentes políticos, a articulação de uma resposta política em âmbito de globalização – e os palcos onde Portugal pode articular essa resposta – estão, permanentemente, ausentes da reflexão na esfera pública. No quadro de um pensamento social-democrata, ignorar esta condicionante é negligenciar o essencial, mas não se pressente nenhum novo rumo numa (desejável) mais estudada e densa formulação (e prévio) estudo acerca de tal problemática. O desafio de Dani Rodrick, em O paradoxo da globalização, continua sem uma resposta democrática à altura, no âmbito dos nossos partidos (que, nomeadamente, não vejam com bonomia o estilhaçar completo das leis do trabalho, de direitos e garantias do trabalhador, (também) em Portugal).



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