segunda-feira, 3 de março de 2014

Procurar saber o que se diz





Viriato SOROMENHO-MARQUES, A ‘opinião’ como doença profissional, in Jornal de Letras, ano XXXIII, número 1132, (19. 02 a 04.03), 2014, 32.

Reza a lenda que na Academia de Platão existia um dístico que impedia a entrada a todos os que não percebessem de geometria. Se pensarmos que esse direito de admissão seria apanágio de uma sociedade aristocrática e hierarquizada, arcaica e dissolvida no tempo histórico, bem diferente das nossas atuais sociedades orgulhosamente democráticas, então é porque não pensámos bem. Na verdade, nunca como hoje a sociedade, como um todo, dependeu de tantas comunidades epistémicas e tecnológicas, organizadas em pirâmides de poder e competência. Novas “Academias”, com requisitos de entrada, que vão do mundo universitário, nas suas inúmeras ramificações, ao universo também plural das organizações militares, que partem dos institutos de pesquisa científica, até ao bulício dos hospitais, proliferam como garantia de que as malhas e os nós do nosso entretecido e interdependente mundo social podem ser mantidas, reparadas e aperfeiçoadas, sempre que necessário. O mesmo é dizer, permanentemente.

Ciência e Opinião: modos de usar
Ao contrário do que se poderia pensar, é na nossa sociedade democrática, e não na sociedade esclavagista de Platão, que as diferenças entre “ciência” (episteme) e “opinião” (doxa) estão mais solidamente afirmadas e garantidas. Na esfera pública, alimentada por meios de comunicação generalista onde não é preciso saber de “geometria”, discutem-se as políticas de saúde, mas não as infeções do sistema urinário (para as quais existem espaços reservados e rigidamente codificados). Discute-se, como agora em Portugal, os orçamentos de investigação, mas não a crise prolongada da física quântica (tema reservado a especialistas). O jornalista tem a nobre função de ser o guardador das pontes, entre os reinos da doxa e da episteme, sendo ele, sobretudo, um gestor da opinião organizada.
Não há profissão que não tenha as suas patologias profissionais. Como dizia Max Weber, a “vaidade” é a doença profissional dos académicos. Contudo, no reino do jornalismo, sobretudo daquele que não pratica a dura e perigosa arte da reportagem, a patologia profissional consiste na crença de que tudo o que se diz e escreve não só pode ser submetido ao crivo da opinião, como, na sua essência, é redutível à opinião.
Uma forma extrema desta doença da opinião irrestrita e ilimitada, chegou-me ao conhecimento através de mão amiga. Trata-se de uma curiosa constelação de frases, coligidas por Henrique Monteiro (HM), numa coluna electrónica do Expresso, sob o título “A Chatice do Aquecimento Global”. O produto está de tal forma desarticulado que não permite um sumário útil. Em poucas linhas misturam-se, como num ferro-velho, os mais diversos e heterogéneos materiais. Nem uma das frases (julgo que não se trata, propriamente de “ideias”) tem qualquer argumento válido ou produz qualquer efeito de iluminação no leitor. Os erros são grosseiros. Como é o caso de referir o IPCC, sem sequer identificar bem o que a sigla quer dizer (confunde “Intergovernmental” com “International”, e coloca um plural onde ele não existe: “Climate Change [s]”...). Sem pestanejar, afirma o articulista: “O IPCC da ONU já mudou a retórica de “aquecimento global” para “mudanças climáticas”. Parece-me bem.”
Trata-se de um jogo de palavras completamente vazio de sentido. O IPCC mudou o seu discurso? Não se percebe quando, pois desde a sua génese, em 1988, que o IPCC trata, precisamente como o seu próprio nome refere, de “alterações climáticas” (de que o aumento da temperatura média da atmosfera é um dos elementos principais, mas não o único).

Uma doença resistente, mas benigna
HM faz ventilar alguns dos mitos e lugares comuns que pululam numa literatura de cordel electrónica (cuja matriz é a polimorfa teoria da conspiração), oriunda sobretudo dos movimentos da extrema-direita norte-americana que, completamente incapazes de articularem os argumentos científicos básicos para um debate climático, acabam por transformar a questão da mudança climática antropogénica numa verdadeira cruzada ideológica, combatida com fervor religioso.
Não perceber que existe uma diferença entre o facto de que tudo pode ser discutido e a proposição de que “todos podemos discutir tudo porque tudo se reduz ao registo da opinião”, é o equívoco de base das frases reunidas pelo articulista na sua rubrica. Na verdade, a maioria dos assuntos das alterações climáticas implicam, para a sua plena compreensão, a aquisição de conhecimentos e competências prévias, sem as quais não é possível o debate, mas apenas a junção de sons ou signos escritos, sem significado cognitivo útil.
A patologia de que sofre HM é severa, mas benigna. Cura-se com bastante estudo, alguma humildade, e capacidade de empatia com o mundo mais vasto. Prestar atenção às tempestades mais violentas que se abateram sobre o Reino Unido, desde 1766, ou ao facto de Portugal estar a ser fustigado por crescentes e sucessivas séries de eventos extremos, perfeitamente documentadas, onde se incluem ondas de calor, tempestades costeiras, tornados e enxurradas violentas, talvez ajude a comprovar não só as alterações climáticas, mas a relação destas com a forma como habitamos o planeta, a começar pela nossa aldeia, cidade, ou país.
É que, como todos sabemos, as opiniões ou as hipóteses explicativas só ganham verdadeira substância quando estabelecem uma relação adequada com um pormenor, às vezes incómodo, mas que faz toda a diferença. Esse pormenor tem várias designações, mas a mais simples e comum é a que se designa por “verdade objetiva”, ou, ainda, por “realidade”. Um pormenor que, apesar de demasiado sério, complicado e gigantesco, nunca será obstáculo para um incontinente fabricante de opiniões fáceis e prontas-a-usar.



Sem comentários:

Enviar um comentário