terça-feira, 4 de março de 2014

Sobre a desvalorização do imaterial







Bárbara MATIAS (entrevista) Manuel SOBRINHO SIMÕES, Estão a rebentar com o que nos distinguia como sociedade ocidental, in Expresso. Revista 01. 03. 2014, 58-59.

“Estão a rebentar com o que nos distinguia como sociedade ocidental”

Aos 66 anos, Manuel Sobrinho Simões, presidente do Ipatimup, mantém a atitude de quando era um jovem médico de 25 anos: prefere falar do que fez a enunciar o que pretende fazer. Os 25 anos do Instituto estão a ser comemorados num ambiente de retração do investimento na ciência e isso assusta-o.

As questões que colocavam há 25 anos, na formação do Ipatimup, são muito diferentes das de hoje?
São, porque começámos numa altura em que Portugal praticamente não tinha ciência. O país é outro. O que é assustador é que nos últimos dois anos isto já está outra vez tudo diferente.

Há agora um terreno adverso?
Sim, e é algo muito recente. Quando começámos, a saúde estava dividida entre ciência fundamental e ciência clínica. Não havia ligação. O Ipatimup forma-se a partir de médicos do hospital de São João. Em 1989 eu tinha-me doutorado há onze anos. Tinha feito a primeira tese em patologia que usava patologia humana. Apanhámos o comboio da Europa. Tínhamos aqui um reitor excecional, Alberto Amaral. Mariano Gago, que depois vai para ministro da Ciência, presidia à JNICT-Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Quando Mariano Gago faz os primeiros painéis de avaliação, na saúde quem presidia era Maria de Sousa. Ela estava lá na fundação connosco. Era um clima de muito entusiasmo. Íamos fazer e acontecer e fizemos e acontecemos.

Sentem agora a fuga de cérebros?
Sentimos. No ano passado perdemos um investigador muito bom para o Canadá e outro igualmente muito bom para a Austrália. O ano passado foi o último ano bom. Em 2013 produzimos mais papers do que em 2012, mas produzimos menos doutores. Passámos de vinte para treze. Já estamos na curva descendente. Estamos com muito medo de não ter dinheiro para manter a infraestrutura. Esse é o grande problema. Até que ponto vai ser possível manter uma política ativa de ciência nas áreas da ciência da saúde se não tivermos uma base?

Qual a dimensão dos cortes orçamentais no Ipatimup?
Foram de 45%. Respondemos mudando a nossa atividade, tornando-a mais ligada à indústria farmacêutica. Procuramos aumentar a nossa capacidade de ganhar projetos internacionais e de prestação de serviços.

Há uma subversão dos objetivos iniciais?
A verdade é que isto no limite subverte. As instituições podem sobreviver. Só que são outras. Isto não é só verdade para o Ipatimup. É verdade para um hospital público como é verdade para uma universidade. Deixámos de ser nós a fazer as perguntas. É a grande diferença. Quando fazemos investigação contratada com a indústria farmacêutica, eles é que fazem as perguntas, nós respondemos. Não vem mal ao mundo por isso. Se for numa pequena percentagem.

É possível fazer ciência a partir de uma visão como a expressada pelo ministro Pires de Lima quando diz que as universidades têm de estar ligadas às necessidades das empresas?
Eu acho que elas têm de estar ligadas, mas não pode ser só isso. O que distingue um investigador é a capacidade de fazer perguntas. Essa capacidade não subentende a aplicação imediata das respostas. Logo, é estruturalmente diferente da pergunta que nos é posta por uma indústria.

O Governo faz uma opção a favor do privado, em detrimento de tudo quanto é público. Esta mudança de paradigma tem repercussões no Ipatimup?
Isso é mortal. A universidade tem de ser pública. Acho muito bem que os dinheiros não tenham de ser exclusivamente públicos. Acho até muito bem que seja estimulado que as universidades consigam fazer algumas receitas, quer com prestação de serviços quer com filantropia. Mas tem de ser sempre uma percentagem razoavelmente menor do que aquilo que é o esforço público. Porque o nosso produto não é transacionável. Estão a rebentar com aquilo que nos distinguia como sociedade ocidental. Assisti a isso quando estava na Argentina. À destruição das universidades públicas, dos hospitais públicos… até privatizaram o jardim zoológico. Se começarmos a definir a empregabilidade como único critério, acabamos com áreas do saber.

Isso é particularmente visível nas ciências sociais e humanas…
Claro, e tem repercussões a nível do saber, da relação social, e na nossa capacidade de nos percebermos. Não é fácil empregar pessoas cuja característica fundamental é serem capazes de pensar quais são os limites da ciência, como é que a ciência interage. O Fernando Gil fazia isso na perfeição, mas hoje ele não teria lugar, por exemplo. É isso que me assusta: a insensibilidade para o que é imaterial.



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