segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre o caso Dreyfus







Nessa altura, o caso transformara-se numa crise política importante e a sociedade francesa estava a dividir-se entre os apoiantes de Dreyfus, os dreyfusards, e os que se lhe opunham, os anti-dreyfusards. Radicais, liberais, republicanos, anticlericais (categorias amiúde sobrepostas) tinham tendência para ficar no primeiro campo com monárquicos, conservadores, antissemitas, apoiantes da Igreja e do exército, no segundo. Mas não era tão simples como isso: famílias, amigos, profissões, todos estavam divididos pelo caso. «Esta guerra dos cinco anos foi travada nos jornais», escreveu Thomas Barclay, o jornalista e homem de negócios britânico, «nos tribunais, nas casas de espectáculos, nas igrejas e até nas vias públicas». Um jantar de família terminou no tribunal quando um genro, que era anti-dreyfusard, deu uma bofetada na sogra, que era partidária de Dreyfus. A sua mulher pediu o divórcio. Entre os artistas, Pissarro e Monet eram dreyfusards, Degas e Cézanne, anti. O conselho editorial de uma revista de ciclismo dividiu-se e os anti-dreyfusards saíram e fundaram a sua própria revista, dedicada aos automóveis. Em Fevereiro de 1899, Paul Dérouléde, um agitador de direita e conhecido anti-dreyfusard, tentou levar a cabo um golpe de Estado contra o dreyfusard Émile Loubet, que acabara de ser eleito Presidente para suceder a Faure. (…)
Para vermos até onde iam as paixões que rodeavam este caso basta vermos que quando o advogado de Dreyfus foi atingido a tiro, pelas costas, por um indivíduo (que nunca foi apanhado), os transeuntes, na cidade conservadora de Rennes, se recusaram a ajudá-lo. Pelo seu lado, os dreyfusards falavam sombriamente de uma conspiração de direita. Embora, desta vez, os juízes se tivessem dividido, Dreyfus foi considerado, de novo, culpado com circunstâncias atenuantes. O veredicto e o perdão subsequente de Loubet foram demasiado para os que a ele se opunham, e insuficientes para os seus apoiantes. Dreyfus pediu um novo julgamento, que lhe foi por fim concedido em 1906. O tribunal de recurso anulou o veredicto e Dreyfus foi reintegrado no exército (…) Dreyfus, que se reformara do exército, alistou-se de novo e combateu na Grande Guerra. Morreu em 1935.
A República, talvez para surpresa de todos, sobreviveu ao caso. (…)
No entanto, o caso Dreyfus deixou danos duradouros. As velhas divisões da sociedade francesa foram reforçada e alimentadas por novas razões de queixa. Se muitos, na direita, viram confirmado o seu desprezo pelos valores republicanos e liberais, na esquerda, a hostilidade para com a tradição, a religião e as forças armadas também saiu reforçada. Os radicais usaram o caso para colocarem o exército, que viam injustamente como nada mais do que repositório de conservantismo e um lar de aristocratas incompreendidos, sob controlo. Os oficiais suspeitos de não terem opiniões republicanas correctas foram expurgados e as promoções, sobretudo às patentes mais elevadas, passaram a depender cada vez mais do tipo de credenciais e ligações políticas. A consequência foi destruir o moral e reduzir ainda mais o prestígio do exército. As famílias respeitáveis, na sua maioria, não queriam que os seus filhos fossem para o exército. Na década que antecedeu a Grande Guerra, o número e qualidade dos candidatos ao corpo de oficiais desceu bruscamente. (…)
O caso Dreyfus também teve ramificações internacionais. Os dois lados tinham apoiantes que criam que o caso se inseria numa conspiração internacional mais ampla. Um proeminente nacionalista reflectiu as desconfianças da direita quando afirmou que «um bando de maçons, judeus e estrangeiros está a tentar, desacreditando o exército, entregar o nosso país aos ingleses e alemães. Em contrapartida, os dreyfusards anticlericais, viam a mão do Papa em acção, sobretudo através dos jesuítas. Fora de França, o caso teve um efeito particularmente infeliz na opinião pública britânica, num momento em que as relações entre a França e a Grã-Bretanha já estavam muito tensas (…) Os britânicos eram, de um modo geral, dreyfusards e, na sua maioria, viam o caso como novas provas, se é que eram necessárias, da instabilidade e torpeza moral dos franceses. No Hyde Park, 50 mil pessoas estiveram presentes num comício para mostrarem o seu apoio a Dreyfus.
A rainha Vitória enviou o seu mais importante magistrado a Rennes para acompanhar as sessões do tribunal e queixou-se a Salisbury da sentença monstruosa e horrível contra o pobre mártir Dreyfus.
Cancelou as suas férias anuais em França, em protesto, e muitos dos seus súbditos seguiram-lhe o exemplo. As empresas pensaram seriamente em boicotar a Exposição de Paris de 1900.


Margaret MacMillan, A guerra que acabou com a paz, p.211-215.





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