sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre o prazer (?) de esperar






José TOLENTINO MENDONÇA, O prazer de esperar, Expresso. Revista 01. 03. 2014, 8.


Precisaríamos talvez dizer a nós próprios e uns aos outros que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o seu tempo, o tempo necessário para ser.

ESTAVA AQUI A LER uma entrevista do fotógrafo Sebastião Salgado, onde se faz o elogio de um prazer inusual: o prazer de esperar. E não é que ele tenha quaisquer ilusões sobre a distância a que estamos desse prazer culturalmente interdito: ‘Vivemos hoje num acelerador de partículas, num clima de permanente expectativa’; temos uma dificuldade, que nos chega a parecer insuperável, de mergulhar na lentidão e na gratuidade dos processos humanos autênticos, por excecionais e quotidianos que sejam. Mas garante Salgado: "Para fazer uma fotografia, é mesmo necessário experimentar o prazer de esperar.”
Lembro-me, a esse propósito, de uma história de Federico Fellini que ouvi contar a Tonino Guerra: um dos hábitos do cineasta era chegar a qualquer encontro um bom bocado antes da hora aprazada, fosse a uma reunião de trabalho ou a um jantar de amigos. Chegava a esse sítio e punha-se a fazer tempo, caminhando prazenteiro e sem dar sinais de coisa alguma ao longo da rua, para lá e para cá. Quando os amigos o surpreendiam nisto e lhe perguntavam porque não tinha tocado à porta imediatamente, a resposta era semelhante à do fotógrafo: "o prazer de esperar.”
A nossa cultura que mitifica (ingenuamente) a eficácia e o utilitarismo há muito cancelou o valor da espera. Os prazos sôfregos que incorporamos consideram-na um atraso de vida, uma excrescência irritante, bota-de-elástico e obsoleta. Esperar porquê? Do pronto-a-vestir ao pronto a comer, da comunicação em tempo real ao experimentalismo instantâneo dos afetos: a espera tornou-se um peso morto com o qual não sabemos lidar e que é preciso descarregar borda fora. Talvez este desejo de instantaneidade seja em nós um dissimulado reflexo defensivo, o medo crescente de que num mundo acelerado não exista afinal ninguém nem coisa nenhuma que nos espere. Quando todos vivem altamente pressionados, tudo se torna arriscadamente precário - é o que vamos constatando. Mas por dentro, e a medo, e sem falar disso.
Damos por nós hipermodernos, polivalentes, aparelhados de tecnologia como uma central ambulante, multifuncionais mas sempre mais dependentes, perfeccionistas mas sempre insatisfeitos, vivendo as coisas sem poder refleti-las, próximos da atividade extenuante e, no fundo, distantes da criação. Precisaríamos talvez dizer a nós próprios e uns aos outros que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o seu tempo, o tempo necessário para ser; é tomar o tempo para si, como lugar de maturação, como oportunidade reencontrada; é perceber o tempo não apenas como enquadramento do sentido mas como formulação em si mesma significativa. Quem não aceitar, por exemplo, a impossibilidade de satisfação imediata de um desejo, dificilmente saberá o que e um desejo (ou, pelo menos, o que e um grande desejo). Quem não esperar pacientemente pelas sementes que lançar, jamais provará a alegria de vê-las florir. No que aos tempos respeita, a vida é completamente artesanal, não é possível reproduzi-la em série, nem encontrá-la feita noutro lado. A vida requer a paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a treinar o gesto, a habilidade, a testar a sua ideia. Por isso, gosto muito da forma bem-humorada como Edgar Morin explica todas estas coisas. Diz ele: "Como toda a gente, tenho um horror total às esperas nos correios ou nos consultórios e não suporto as filas burocráticas a que nos obrigam. Contudo, não cesso de esperar o inesperado.”





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