sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril


Dos múltiplos inquéritos realizados junto dos portugueses, no contexto dos 40 anos do 25 de Abril, aquele que mais relevou, a meu ver, foi o que visava aferir da relação entre pertença ideológica e a (significativa) data/acontecimento de 1974. Em 2014, felizmente, a bondade do 25 de Abril já não separa esquerda e direita: em ambos os casos/filiações, revelam-nos os estudos ora publicados, este referente é valorado positivamente. Trata-se, portanto, de uma (final) apropriação colectiva de um fenómeno – o que deve ser, também, motivo de satisfação para os que se sentiam mais próximos/ligados/vinculados/pertencentes e pertencidos à revolução (que não devem tomar esta colectiva valorização, do movimento de Abril, como uma perda, mas, precisamente, o seu inverso: uma vitória). Do mesmo modo, deve fazer reflectir os que sempre se sentiram na franja, nunca integrando, na sua identidade política, a data agora especialmente celebrada, pois que mais não restam do que moinhos de vento com quem lutar. Os adversários foram-se, pois que hoje, como os estudos de opinião provaram, perpassa pelo país o mesmo sentimento político positivo sobre o 25 de Abril de 1974. Numa palavra, o tempo de, face ao 25 Abril a sociedade se fragmentar entre a arrogância moral, de um lado, e o trogloditismo, do outro, finou-se. No acertado dizer de António Lobo Xavier, um discurso lamuriento, uma linguagem erodida e, logo, sem eficácia, sem força, seja sobre as conquistas de Abril por realizar, seja sobre o PREC que explicaria todos os males sucedâneos do país, tornou-se não apenas bolorento, como inaceitável.
Se a pacificação em torno do que não deve ser o discurso em torno de Abril pode, finalmente, ter sido alcançada, já os discursos sobre o presente e o futuro de Portugal continuam envoltos em uma ganga dispensável, suscitando o mais variado leque hermenêutico, que, no caso do mais alto magistrado da nação, um futuro preâmbulo dos Roteiros explicará em toda a sua extensão. No seu primeiro ano de mandato em Belém, Aníbal Cavaco Silva fez a melhor de todas as suas comunicações na AR, nesta data, sendo geradora de uma esperança que o futuro não veio a justificar. A reinvenção do discurso político, claro e limpo como o dia, ficará, assim, a cargo da geração próxima que ocupe Belém.



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