quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Expo 97 de uma geração





Na recente entrevista dada a Vítor Gonçalves, na RTP Informação, Herman José afirmou que o Herman Enciclopédia marcou uma geração.
Confirmo: na manhã seguinte a cada novo episódio da série, o Nuno, talvez o mais divertido de todos, onde os divertidos não abundavam, trazia os diálogos, as interjeições, o espanto do Mike e do Melga [não eram os meus preferidos] na ponta da língua – olá Mike! Olá Melga! Respondíamos, divididos entre os intervalos das aulas e os intervalos nas aulas, os dois ou três que seguíamos religiosamente o programa, com a convicção híper-nortenha do pato bravo engenheiro Passos de Ferreira  é o engenheiro, carago!, exclamava a dedicada secretária [representada por Maria Rueff] - ou o impertinente Tawny [este homem não é do Porto! Este homem não é do Norte, carago!], entusiasmados com o Tripanário para fazer frente ao oceanário da Expo 98 [esse sorvedouro de recursos, roubados ao Norte], sendo que o zzzz e, mais ainda, o não havia necessidade era uma espécie de música de fundo que, por essa época, acompanhava qualquer conversa. A super tia, com os seus maneirismos, o personagem do Bastos com o seu timbre incomparável e a pergunta que sempre fazia(mos) – onde é que tu estavas no vinte e cinco de Abril?! -, sem deixar os seus reparos, aos convidados, ó meu grande fdp, com todo o respeito que tenho por ti -, o Let’s look at trailer, vamos ver, de Lauro Dérmio, o bbc vida selvagem com o muito peculiar repórter concentrado no espécime português, a glosa de Carlos Pinto Coelho com mãe África, meu Deus, áfrica, mãe, mãe África, tudo, sem esquecer, claro, a sexóloga impenitente Rute Remédios.
Herman tinha caído num caldeirão com uma espécie de poção mágica e, de uma rajada, trazia um sem número de personagens, de sketches inesquecíveis, de um humor inteligente. 
A poção mágica, explica ele hoje, era constituída por uma equipa exclusivamente dedicada a escrever os textos do programa – citou Nuno Markl -, algo que nunca lhe sucedera até então, e que, por sua vez, resultava do facto de as restrições orçamentais, na televisão pública, não se fazerem sentir, à época, existindo tempo suficiente para compor bem os personagens, gravar adequadamente, maturar textos e sketches. Vivíamos a era pré-tvcabo, nenhum de nós tinha net em casa, era, ainda, tempo de uma cultura comum minimamente reconhecível, sem nos enfeudarmos nas minúsculas partículas, de gostos/interesses, que cada um – ou um grupo restrito – frequenta hodiernamente.
O big brother não tinha chegado, a luta pelas audiências não chegara ao nível rasca, a quantidade não substituíra, totalmente, a qualidade.
Quando a bulimia fast-food televisiva nos passar, talvez haja tempo, de novo, para sorrir.



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