sábado, 5 de abril de 2014

Das idas ao teatro (II)


Desde O cavalo de Turim que não saía tão preenchido com uma ida ao Teatro de Vila Real. Ontem, num (semi) despido Grande Auditório voltei a deparar-me com um grande texto, uma excelente interpretação e uma cenografia tão despojada, ‘limpa’, quanto bela e apropriada ao jogo (interdependente) com a ética (narrativa). Na estética, portanto, como pano de fundo, uma espécie de mito de Sísifo, com uma montanha - não a pedra - a deslizar, a formar-se de novo, e a deslizar outra vez, exprimindo/acompanhando o absurdo do quotidiano (falando, aliás, o mesmo idioma que o da repetição dos lugares, das frases, dos gestos, quotidianos, dos personagens à espera, presos, de Godot).
Podemos reler o texto de Beckett como uma notável crítica a uma certa ideia, ou conceito de Deus - que tende, hoje, a ficar de lado, em muita da teologia (e podemos, do mesmo modo, de tal sorte, regressar a Nietzsche, provavelmente o radical que subjaz ou paira sob a parábola).
Lucky é o sortudo porque tem um deus de que é escravo (vai ao poço; Pozzo; a parte primeira da peça é, a esse título, brilhante - e, acaso o espectador/leitor não houvesse atentado devidamente, nem tivesse ponderado, devidamente, na nomeação das personagens, a pergunta, surgida na parte segunda, “não era este [Pozzo] Godot”? ultrapassava a subtileza metafórica, para um registo mais directo - na encenação da escravidão), fazendo tudo o que lhe manda. Um deus que se mostrasse e provasse a sua existência (materialmente), ao modo positivista, não permitiria a liberdade da opção por uma fé (acreditar sem ver) que já não seria possível (dada a prova material que a recusaria) e daria todas as indicações ao humano medroso da liberdade e responsabilidade que, inapelavelmente, lhe compete, retirando ao Homem espaço à criatividade e imaginação, dobrando este sob a espada de uma pauta de todo o quotidiano, toda e qualquer situação, em qualquer espaço/tempo. É nesta falta de fé – ou, se preferirmos Halík, esta fé a mais num deus que nos evitasse a dor da escolha, do dilema, com o regulamento sem uma hesitação – que milhões se encontravam, ou encontram, no texto de Beckett.


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