terça-feira, 22 de abril de 2014

Documentários pascais


Vi o documentário que passou no National Geographic, Mistérios de Jesus, no Domingo de Páscoa. Esperava, francamente, melhor. No primeiro capítulo, digamos assim, sobre a Natividade, não é traçada uma linha de fronteira totalmente clara entre o que pertence ao domínio da história – tal como hoje a concebemos – e o registo puramente narrativo. Assim, se se realça o simbolismo da mirra, enquanto elemento que serve ao embalsamar do cadáver, assim significando, os Reis Magos, com essa oferenda, quanto a morte daquela pessoa (bebé que vão visitar) será tão importante, quase perpassa a ideia de que estes adivinhos conheciam toda a história subsequente, pelo que esta – a História – mais não foi do que um simulacro da realidade, onde, efectivamente, ninguém actuou, ninguém foi responsável, joguetes nas mãos do destino, dignidade perdida.
Depois, a ideia de associação de um cometa ao que foi a estrela descrita pela Bíblia que guiou até Jesus, releva, a nosso ver, da tal noção de que a ciência pode corroborar a fé, pode apresentar provas para esta. Se há provas, não há mistério, nem necessidade de abertura a este, nem fé. Bem sei os cálculos de astronomia feitos ao longo dos séculos para tentar provar que a estrela – ou um elemento que com ela pudesse parecer-se – existiu historicamente. Muito mais interessante me parece, no entanto, a abordagem puramente narrativa de que fala, por exemplo, Carreira das Neves, na qual a estrela aponta para o carácter extraordinário de Jesus, a sua singularidade e divindade (aliás, presentes, igualmente no episódio bíblico da matança de bebés por Herodes, a anunciar, já, a realeza de Jesus). Este o ponto central e que importa; não a Bíblia a fazer ciência. Também não fica claro no documentário se este leva completamente a sério – e se se interessa – pelo cometa (no sentido da abordagem científica; e sobre a matança dos bebés, a mando de Herodes, aos costumes diz nada).
Segue-se um tempo desmesurado oferecido à peregrina ideia de que Jesus terá estado no Reino Unido, aprendendo dos druidas as curas e os milagres. Sem um único facto a sustentar, sem um texto a remeter para essa zona, sem uma amostra de prova da sua passagem por Inglaterra, revela-se um exercício um tanto fútil aquele que o documentário realiza durante 15 ou 20 minutos.
A leitura do processo de Jesus também não prima pelo pormenor, nem pela exactidão jurídica (por exemplo, quanto aos poderes do Sinédrio). Mas, pelo menos ali, não se coloca um Pilatos à beira da conversão e a deixar à escolha de uma nação o nazareno ou Barrabás (aqui já opta, completamente, o documentário, por um registo histórico-crítico).

Já agora, para se ter uma ideia de quão complexa perdura sendo a hermenêutica dos textos acerca do encontro com o governador romano, Aslan chega a questionar a sua realização histórica (mais ainda, a parte relativa a qualquer discussão (filosófica) sobre a verdade) – na esmagadora maioria dos casos, Pilatos colocava “um rabisco” e não procedia a qualquer julgamento; só quando considerava muito perigoso o réu. Tal autor coloca, igualmente, em cheque a ideia de julgamento do Sinédrio, nomeadamente na hora descrita e em casa do sumo-sacerdote. Quanto à crucificação, esta era muito utilizada, porque, informa-nos, era “muito barata”. Mas não servia para condenar alguém à morte, pois muitas vezes, fruto da selvajaria (nomeadamente, perpetrada pelos soldados) até ao local da crucificação, já os condenados tinham perecido. O objectivo era amedrontar, intimidar: se beliscais a ordem (pax romana), é isto que vos acontece. Por isso, sempre as crucificações eram públicas e publicitadas. Os cadáveres, expostos, ficam à espera de aves e outros animais que venham sobre eles (daí, destes cadáveres das crucificações, ganhou o nome o lugar do gólgota, o lugar da caveira, diz Aslan). Está longe, este autor, é de explicar, ainda por cima com riqueza de detalhes, como faz Gnilka, como aqui se separavam procedimentos de judeus e de romanos (e, como, por isso, foi o corpo de Jesus recolhido e sepultado).


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