terça-feira, 15 de abril de 2014

Escola portuguesa


Maria Filomena Mónica não tem insistido muito no ponto, mas parece-me um dos dados da maior importância saídos dos diários escritos por professoras e alunas sobre a(s) sala(s) de aula, em escolas portuguesas, nestes anos da segunda década do século XXI, nas publicações agora saídas na Fundação Francisco Manuel dos Santos, sob a sua coordenação: os programas de português, do Básico ao Secundário, estarem pensados para uma carga horária superior à efectivamente existente para aquela disciplina. Como assim é – e quem elabora os programas sabe que assim é! -, naturalmente os programas apresentam uma extensão e ambição impossíveis de cumprir.

Uma segunda nota prende-se com a afirmação, ainda ontem no programa de Medina Carreira, por parte de Filomena Mónica, de que os programas de humanidades, seja na história, seja na literatura, se centram absolutamente no século XX. Ora, ao ler o primeiro dos diários publicados, de uma professora de português, verifico que Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett ou Antero de Quental continuam a ser ensinados – tudo autores do séc.XIX. A crítica, neste caso, não parece, pois, proceder, em absoluto. Todavia, a diarista fala, em uma metáfora carregada, no “genocídio” de vários escritores portugueses, ao longo dos séculos: “toda a literatura medieval foi varrida” e dos séculos XVII, XVIII e XIX, “todos os poetas, à excepção de Cesário Verde, foram barbaramente assassinados e ninguém explicou por que motivo ou razão”. Tão mau, ou pior, o facto de os alunos serem “mortificados com textos do domínio transaccional (regulamentos, relatórios, actas, requerimentos…), deixa pouco espaço ao estudo do texto literário em si”.

Diferentemente, pareceu-me pertinente, por aquilo que pude ver em testes de avaliação da disciplina, no ensino Secundário, em anos recentes, e do diálogo mantido com professores da área, a observação de que nas humanidades, hoje em dia, se pretende, sem devida ponderação crítica, respostas muito objectivas – assinalar com o X a resposta correcta – e não se ensina a pensar (quando Filomena Mónica procura, em trabalhos de casa feitos com as netas, explicar mais detalhadamente a matéria de História, uma destas responde: “Ò avó, deixe lá isso: qual das alíneas é que está certa?”, em um diálogo, efectivamente, bastante verosímil).


No início dos diários, a professora de Português requisitada para a missão de nos retratar a escola, como que assume uma certa amargura por tudo desaguar no professor, como se ele pudesse ser a explicação para todos os (maus, nomeadamente) resultados (escolares). Para além das dimensões/problemas económico-sociais, familiares, que convoca, a autora diz, ainda, que muitos pais não compram e não lêem jornais, não vão ao teatro, não visitam museus, não querem saber dos livros. Aí está um dos requisitos que (a professora) assume, e bem, como aferidor, também, de competência parental (se assim se poderá dizer): ler jornais, ir ao teatro, visitar museus, querer saber dos livros.


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