sábado, 12 de abril de 2014

Hoje, mais do que nunca, como dizia o Jardel




Para o Paulo. Que mantém a chama sem tergiversar. Como deve ser.

Não quero a explicação, banal, das vitórias que multiplicam adeptos.
Quero um cachecol, azul forte, azul clássico, azul familiar, tecido à mão e inquebrantável nos que o partilhávamos, cachecol não clean, limpinho e cheio de bordados e inscrições artificiais, tão lindinhos, tão bonitinhos quanto impessoais, quero o cachecol na era pré-marketing, pré-merchandising, e outras palavras tais de que nem fazia ideia, então, existirem, nem, tão-pouco, afinal, o futebol as conhecia.
Quero a imensa alegria de uma bandeira comprada no estádio adversário, após uma vitória arrancada na última fibra de um estofo que permitiu trinta anos de alegrias. Não, não é uma despedida, é um já aí vamos.
Talvez aos quatro ou cinco anos, em Chaves, o miúdo insultado pelo cachecol do Porto, insultado, em simultâneo, com a familiar presença que o também segurava, o miúdo que presenciava uma hostilidade visceral àquelas cores, o vidro do autocarro – ainda modesto – da equipa inapelavelmente partido, ano após ano, naquele local, as redes que separavam a bancada do relvado invadidas de um ódio inconcebível, as cuspidelas na direcção do banco do Porto, o acinte permanente, as portas dos camarotes a estourarem a qualquer falta assinalada ao visitante, enfim, esse miúdo que, contudo, com incontida felicidade (infantil) desfraldava a bandeira na estrada de regresso a casa, era já o adepto fermentado no caldo de cultura que o fazia saber ser portista como uma segunda carapaça, epidérmica ligação, um não sei quê de conexão telúrica aos que vibravam – e vibram – no mesmo sentido. Uma respiração. Com vitórias – no futebol, nunca um excesso, nunca um ornamento, nunca supérfluas e sempre essenciais. Mas com mais do que vitórias. 

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