quarta-feira, 9 de abril de 2014

Internet (II)


Ciberteologia



Nas viagens pelo pensamento acerca da rede não podiam faltar, claro, as ciberteologias. António Spadaro, que ainda recentemente entrevistou o Papa Francisco (conversa, entretanto, já registada em livro) escreveu, inclusive, uma obra com esse título (no singular: Ciberteologia). Para o teólogo italiano, fundamental é compreender que a internet não é mais um instrumento, mas um ambiente, que moldamos tanto quanto nos molda. Sendo uma ecologia, a questão não passa, tanto, por ser mais um meio de evangelização: o que se pede, ao católico, enquanto tal, é, 'apenas' um modo cristão de habitar a rede. Chamando a atenção para o perigo de criarmos uma bolha - por exemplo, quando nas pesquisas o google indica os nossos interesses, e não vamos além - ao mesmo tempo, porém, reflecte sobre os extraordinários desafios que representa. Talvez, o mais iconoclasta, seja a exemplificação do significado de salvação em termos informáticos, e o sentido teológico do mesmo vocábulo. É que, se a salvação, teologicamente falando, implicava, de algum modo, o 'apagar', ou 'esquecer', isto é, pressupunha o perdoar, já "a salvação digital, o «salvamento» é exactamente o oposto do cancelamento. Se um arquivo é salvo, tudo, até mesmo os erros permanecem fixados, não esquecidos. A salvação digital, portanto, cancela o olvido. E, hoje em dia, a Rede é o lugar onde o olvido é impossível" (p.34). Existindo esta divergência de significados e retomando-se, simultaneamente, o pressuposto essencial de que a net é uma ecologia, mais até, é "a" ecologia (dos nossos dias), como tornar compreensível - a inculturação significa, precisamente, o adentrarmo-nos em uma cultura e saber dialogar na sua linguagem - o conteúdo fundamental da salvação e do perdão (religiosos)? Citando J. Rosen, Spadaro fixa a questão: «diante das dificuldades de viver num mundo sem perdão, devemos [...] encontrar novos modos de perdoar os rastros digitais que levaremos para sempre». E conclui: "Actualmente, mais do que nunca, compreende-se melhor como o perdão não coincide de facto (e, ao contrário: não pode mais coincidir) com o esquecimento, e que o perdão autêntico é uma intervenção que transcende a minha história, que se encontra fora do sistema de minhas possibilidades, sendo baseado na alteridade de Deus. No mundo em que «o meu pecado sempre está diante de mim» (Sl 51,5), e tudo é digitalmente salvo, como resultará pensável a salvação religiosa?" (p.36).
Em definitivo, a internet é "novo contexto existencial", que existe porque foi desejada, um centro como outrora foi a catedral, ou a estação. Lá, onde as hierarquias mais rígidas se quebram, o centro é o sujeito, e o ser humano tem que ser, nesta hora, um "descodificador face a respostas múltiplas" (p.52). Se a rede isola, trai-se a si mesma (p.64); reclama, de todos nós, novas imagens e novas metáforas (para falar aos que vivem na net e para compreender o humano). Através das tecnologias, o Homem procurou interpretar o mundo de modo analógico, pelo que estas não deixam de fornecer novas representações que abrem novos espaços cognitivos de interacção entre o mundo e o humano. Logo pela linguagem, estas, as tecnologias, já influenciam, como se comprova no já citado novo entendimento, de termos antigos, para a inteligibilidade da fé. Há, ainda, o risco de se cair na ideologia da rede (p.47). Tal como constrangimentos podem revelar-se a autorreferencialidade, o ficar pela imanência e recusa da transcendência, ou a ausência de mediação. Descentralização, partilha, colaboração, dependência, controlo, estupidez colectiva, auto-regulação, rejeição do pai (p.104), privatização dos escopos da vida (p.71) outro conjunto de expressões para pensar a rede.

P.S.: À semelhança de Al Gore, pela mão de P. Levy, Pierre Teilhard de Chardin é o teólogo convocado, por Spadaro, para nos aproximarmos do «conhecimento colectivo».


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