terça-feira, 29 de abril de 2014

Introdução à política


Voltemos à história. E à petit historie. Vencendo um confronto muito seguido em toda a Europa política, frente a Ségolène Royal, Nicholas Sarkozy, a grande esperança da direita (europeia) na primeira década dos anos 2000, visita Lisboa, é José Sócrates primeiro-ministro português. Do diálogo com o então inquilino de São Bento terá resultado um curioso desabafo, do nóvel presidente gaulês, para o jornalista do Le Point que acompanha a viagem: se o PSF fosse assim, não saberia bem o que fazer (como me diferenciar deste). Sócrates é visto, por essa altura, em Portugal, como um líder pragmático, 'pós-ideológico' (tendo, de resto, ganho as eleições internas socialistas face a uma ala esquerda representada por Manuel Alegre). Uma boa parte da direita portuguesa aprecia-lhe as qualidades (em entrevista à Visão, se a memória não me atraiçoa, o então líder da CIP, referindo-se a Sócrates, diz: "Gosto de líderes autoritários"). A crise de 2008, as necessidades políticas, o oportunismo ou um rápido aggiornamento político-ideológico (os críticos assinalarão, com clareza, a primeira hipótese; Mário Soares garante a segunda) transformam o discurso de Sócrates, das eleições de 2009 em diante, em algo bem mais à esquerda do que até então se lhe ouvira.
Entre os ministros que compõem o primeiro governo de José Sócrates está Diogo Freitas do Amaral. Sempre que instado a pronunciar-se sobre - ou fazendo de motu próprio - a sua participação naquele Executivo, o Professor de Direito refere-se, sem hesitações, ao orgulho de nele ter marcado presença e, bem assim, ao modo como se revê na linha política então seguida.
É a esta luz que creio que vale a pena formular um juízo sobre a pertença político-ideológica daquele governo e dos seus integrantes, tomando, como contributo suplementar, a descrição que Freitas do Amaral faz (do período governativo de Sócrates; diga-se que, enquanto nesta sua mais recente obra, o autor toma o período governativo de Sócrates como uma unidade, em diversos contributos públicos havia feito questão de separar a governação prosseguida entre 2005-2008, e desta data até 2011; talvez para simplificar optou, agora, por um registo que sugere uma homogeneidade...antes contrariada pelo próprio), no acabado de publicar (pela Bertrand) Uma introdução à política (Abril, 2014; com a participação dos Professores Pedro Machete e Maria da Glória Garcia; sendo que o capítulo a partir do qual é citado o curto excerto que se segue é da exclusiva responsabilidade de Diogo Freitas do Amaral):


"2005-2011 (Governos Sócrates): sistema social-democrata pro-business, de inspiração ora norte-americana, ora inglesa" (p.456)



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