sábado, 19 de abril de 2014

O rumor (quase) perdido


E.P.Sanders, em A verdadeira história de Jesus, plasma a convicção de que, muito embora bebido no Salmo 22, o humaníssimo grito meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?, terá, mesmo, sido dito por Jesus (não sendo, pois um "motivo cristão" pós-pascal) na cruz. Cruz, esta, pese as diversas representações que dela temos, que era sensivelmente da dimensão da pessoa (por isso a necessidade de uma posição mais encolhida, nela, pelo crucificado). Se há crucificação, é porque foi ordenada pelos romanos e, assim sendo, há uma dimensão política clara no delito apontado. Cirene, de que ouvimos falar, a propósito de Simão, no relato da Paixão, nome sobre o qual talvez nem reflictamos, refere-se a uma geografia - Norte de África (Cirenaica), onde havia uma comunidade judaica (Gnilka). Da flagelação, temos os mais variados relatos de atingir uma crueldade inusitada (até ao osso; muito possivelmente, correspondendo a imagens, "orgia de sangue" (Halík), de Mel Gibson). Tal como Gnilka, Sanders vê o episódio no Templo, com os cambistas e vendedores de pombos, como o detonador do processo de Jesus. Todavia, fá-lo acompanhar de palavras que Jesus teria dito no mesmo instante. Mais prudente quanto ao imediato pedido de execução que Caifás teria feito a Pilatos relativamente a Jesus, Gnilka vê-o como possível, mas não o garante. Para Sanders, tal facto é indiscutível; tal autor não identifica as formalidades no procedimento de Pilatos, cuidado que Gnilka detecta. Os mais variados testemunhos revelam a personalidade violenta, sem escrúpulo, do governador romano...que, inclusive, seria deposto por Roma. Caifás teve também um extenso 'reinado'. Entre os poderes do Sinédrio não se contava o de executar alguém. Entre as obrigações do sumo-sacerdote, escolhido pelos romanos respeitando as tradições judaicas, estava a questão da paz social que Jesus, no Templo, teria inquietado. No dizer contemporâneo de Rui Chafes, "o perigo que Jesus Cristo representou (e ainda representa) é o de ser alguém para quem não existem leis, apenas excepções, alguém que aparece para questionar e desestabilizar o que está empedernido". "Dizia coisas belas, respondia com perguntas, ensinou que a finalidade de uma oração não é obter uma resposta: o seu desejo não era aliviar o sofrimento das pessoas ou reconstruir a sociedade, ele apenas tentou ensinar que não existe nenhuma diferença entre a nossa vida e a vida dos outros, que a história de cada indivíduo é a história do mundo, que todos somos um milagre que faz parte de um todo, que a nossa vida é o reflexo da extrema amplidão da nossa alma, que as coisas em si têm pouca importância e que apenas o espírito sobrevive" (p.43)


Sem comentários:

Enviar um comentário