sábado, 12 de abril de 2014

Sul




Senti de novo falta da ofuscante e excessiva luz do sul, a luz que transforma tudo o que é real numa hipérbole da realidade: o exagero da realidade, aqui, parece afinal ser exactamente a sublimação desse real. Mas não é, é apenas o desvio que exige de nós um muito maior esforço para ultrapassar a evidência da realidade. O que se passa debaixo da crueza do sul é uma forma de benevolência mascarada de impaciência: aceitamos as imperfeições do real com a mesma voracidade com que devoramos (ou desejamos devorar) as suas perfeições. É nesse implacável balanço entre peso e leveza, entre água e doçura, que os povos do sul sempre constituíram, no meio do maior caos, a grandeza arcaica do seu destino (...) O sul é onde se exerce a arte de aceitar o caos como princípio criativo.

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra, Documenta, Lisboa, 2014 (2ª ed.), p.24 e 30.


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