segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um "povo conservador"


     

Bem interessante a entrevista que o Expresso publicou, este fim-de-semana, com Frank Carlucci. As lutas interpretativas, do embaixador norte-americano em Lisboa (1974-1977) com o ministro da tutela (o “MNE” norte-americano à época, Henry Kissinger), sobre o caminho que Portugal seguiria no pós-25 de Abril são extremamente interessantes. Entre a perspectiva de que Portugal será, inevitavelmente, a nova “Cuba da Europa” – como julgava Kissinger – e a visão, diametralmente oposta, de que tal é “uma anedota” (Carlucci) se jogava o tipo de acção que se entendia ser necessária empreender em contexto, recorde-se, de guerra fria.
O interesse principal deste verdadeiro duelo de visões acerca do Portugal (pós) revolucionário reside hoje, a meu ver, conhecida a história realmente acontecida, no radical, no motivo último, do acerto do juízo/diagnóstico/prognóstico do embaixador em Lisboa em meados dos anos 70. É o próprio quem revela o modo como chegou à formulação que, então, expendeu. Tendo-se preparado para vir para “a mais difícil embaixada do mundo”, quis saber tudo sobre Lisboa, Portugal e os portugueses. Leu tudo o que pôde sobre este povo. Em particular, as memórias e anotações de um anterior diplomata americano na capital portuguesa. O que daí retirou, como principal conclusão, é que o povo português é (ou, pelo menos, era) “conservador”. O adjectivo é reiterado bastas vezes ao longo da entrevista. A importância do pároco de aldeia, a permanente devoção à Igreja são traços que compõem o quadro descrito por Carlucci.
Daí que Portugal tornar-se uma “Cuba da Europa era uma anedota”. Daí, também, a conclusão, que dá título à entrevista na capa do Expresso, de que um partido comunista mais inteligente – e na conversa com o jornalista do semanário isto é traduzido por “um partido comunista menos radica” – poderia ter conseguido o poder.
Fazendo parte da geração nascida depois do 25 de Abril, não me falta imaginação para compreender o que foi a censura até aquela data de 1974 – ao contrário do que sempre sugere Marcelo Rebelo de Sousa (vide, por exemplo, debate com Maria Antónia Palla e Joaquim Furtado, com moderação de Vítor Gonçalves, RTPInformação, 24/04/14), sobre a absoluta incompreensão, pelas novas gerações, do que a censura era. Diferentemente, julgo que não está muito presente nas mais jovens gerações a ideia de quanto a revolução portuguesa e as consequências que trazia/poderia trazer influenciaria um conjunto de países, não apenas do espaço europeu, mas, também, na América Latina. A escassa inteligibilidade desta circunstância resulta, creio, de tal ideia ser (um pouco) contra-intuitiva: como um país tão pequeno marcaria tantos outros, com dimensão e poder bem maiores e geografias diversas?
Para este facto, Carlucci, que se recusa a falar nos financiamentos norte-americanos a partidos e políticos portugueses nessa altura (em particular, a Mário Soares, que elogia, como se esperaria), alerta também.


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