quarta-feira, 21 de maio de 2014

1999-2008: o modelo alemão





"durante o período de referência [a Alemanha] apresentou uma taxa de câmbio real negativa graças à contenção nos salários em paralelo com ganhos de produtividade (devidos à inovação e a melhorias na organização interna das empresas), e à inexistência de bolhas imobiliárias que levassem aumentos substanciais da «renda da terra»; reforçando a sua posição como líder exportador na Europa" (p.165); "Por sua vez, a globalização havia tornado possível uma intensificação das relações comerciais e de investimento entre a Alemanha e a China - ambas exportadoras industriais - em que a Alemanha exportava e investia na China, respondendo à procura gerada pelas dinâmicas da industrialização, urbanização e motorização da economia chinesa e a China tinha assegurada a abertura do mercado da União Europeia para os bens de consumo ou intermédios em que se havia especializado. Ou seja, competindo cada vez mais com a Europa do Sul em muitos dos produtos em que esta também se havia especializado nas suas relações comerciais intraeuropeias" (p.169); "É muito claro que as correntes maioritárias na elite política e empresarial da Alemanha querem conservar o euro e não têm a intenção de regressar ao marco. Com efeito, a Alemanha quer conservar o euro porque, num contexto de globalização, um espaço monetário muito mais vasto do que seria o do marco é fundamental para reduzir o impacto dos movimentos de capitais no processo de valorização das moedas em que sejam transaccionadas as exportações da Alemanha. A Alemanha quer conservar o euro, pois ambiciona caminhar para um sistema monetário internacional multidivisas incluindo o dólar, o euro e possivelmente o yuan chinês, pondo fim ao actual padrão-dólar.
A Alemanha, opondo-se em muitos aspectos ao modelo de capitalismo anglo-saxónico, está empenhada em fazer da zona euro uma base de apoio para forçar os EUA a aceitar mudanças nas suas práticas financeiras, que hoje são dominantes; e não o pode fazer sozinha, precisa da França, da Holanda e da zona euro em geral. A Alemanha quer conservar o euro porque considera fundamental para completar a integração da Europa Central na sua esfera de influência (...) A Alemanha é uma grande economia exportadora, mas não é uma inovadora radical; o seu crescimento advém exclusivamente da dinâmica das suas exportações cada vez mais para regiões fora da União Europeia; e a sua competitividade traduz-se na sua capacidade de vender em todo o mundo produtos de gama alta dos sectores em que está especializada há décadas, e controlar de forma rigorosa os custos unitários no trabalho industrial, combinando inovação incremental e regulação salarial corporativa.
A Alemanha não tem a dimensão económica nem a disposição para incentivar o conjunto da zona euro com estímulos à sua procura interna que pudessem pôr em causa a competitividade da sua indústria exportadora (e aliás se o fizesse os principais beneficiários seriam as economias do Leste Europeu e as economias emergentes). A Alemanha é uma sociedade envelhecida, com um Estado-Providência abrangente e dispendioso e um Estado que tem de suportar os custos da reunificação e apenas com três Estados federados de dimensão (Baviera, Baden-Wurttemberg e Hesse) a suportar os custos da reunificação e os custos do declínio industrial de Estados da antiga RFA; o que a levou a optar por um rigor orçamental muito exigente e a uma total indisponibilidade para ampliar os seus compromissos financeiros com a União Europeia, tenham eles a forma que tiverem (p.82)"


José Manuel Félix Ribeiro, in A economia de uma nação rebelde, Guerra e Paz, 2014.



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