segunda-feira, 19 de maio de 2014

A transformação/perda do poder (ele mesmo)





Os jogadores estão a aprender o jogo [xadrez] e a alcançar a mestria em idades muito mais jovens. Há agora mais Grandes Mestres do que alguma vez houve: 1200 actuais contra os 88 que existiam em 1972. À medida que os recém-chegados derrotam os campeões estabelecidos com cada vez mais frequência, o tempo médio de consagração dos jogadores mundiais de topo tende a diminuir. Além disso, os Grandes Mestres de hoje têm origens muito mais diversas que os seus antecessores. Como observou o escritor D.T.Max: «Em 1991, no ano em que a União Soviética se desmoronou, os nove maiores jogadores do mundo eram da URSS. Nessa altura, nos últimos 43 anos os jogadores treinados na União Soviética haviam vencido 37 dos últimos campeonatos mundiais».
Mas as coisas mudaram. Mais jogadores são agora capazes de chegar ao topo das ligas de xadrez, e vêm de uma grande variedade de países e bairros. No entanto, quando chegam ao topo, têm grande dificuldade em permanecer nessa posição. Como observou o blogger de xadrez Mig Greengard: «Existem 200 pessoas no planeta que, com um vento de feição, jogam o suficiente para derrotar o campeão do mundo». Por outras palavras, até entre os Grandes Mestres actuais o poder já não é o que era.
O que explica estas mudanças na hierarquia do xadrez mundial? Em parte (mas apenas em parte), a revolução digital.
Desde há algum tempo que os jogadores de xadrez têm acesso a programas de computador que lhes permitem simular milhões de partidas jogadas pelos melhores do mundo. Podem também usar esses programas para estudar as implicações de cada jogada possível; por exemplo, os jogadores podem repetir qualquer jogo, examinar os movimentos seguindo cenários diferentes e estudar as tendências de jogadores específicos. Assim, a internet alargou os horizontes dos jogadores de xadrez em todo o mundo e, ao mesmo tempo - como comprova a história de James Black -, criou novas possibilidades para pessoas de qualquer idade ou condição socioeconómica. Inúmeros sites de xadrez fornecem dados e oportunidades de jogos competitivos a qualquer pessoa que tenha uma ligação à internet.
No entanto, esta história não é apenas sobre a tecnologia. Veja-se, por exemplo, o caso do jovem campeão norueguês Magnus Carlsen, outro fenómeno do xadrez que, em 2010, se tornou o nº 1 do mundo, com 19 anos. Segundo D.T. Max, que fez o perfil deste jogador na The New Yorker, o êxito de Carlsen deveu-se mais às suas estratégias pouco ortodoxas e surpreendentes (baseando-se parcialmente na sua memória prodigiosa) do que a um treino baseado em programas de computador: «Como Carlsen passou menos tempo que os adversários a treinar com computadores, tende menos a jogar como eles. Confia mais no seu próprio juízo. Isto torna-o complicado para os adversários, que treinaram com programas informáticos e com bases de dados».
A demolição da estrutura do poder do xadrez mundial decorre também das mudanças na economia global, na política e nos padrões demográficos e migratórios. As fronteiras abertas e as viagens mais baratas deram a mais jogadores hipótese de participarem em torneios em qualquer parte do mundo. Os padrões mais elevados de educação e o aumento da literacia, da cultura aritmética e dos cuidados médicos infantis criaram uma reserva maior de potenciais Grandes Mestres. E hoje, pela primeira vez na história, vivem mais pessoas na cidade do que no campo - um desenvolvimento que, acompanhado pelo período prolongado de crescimento económico de que muitos países pobres gozaram desde os anos 90, abriu novas possibilidades para milhões de famílias para quem o xadrez era um luxo inacessível, ou até desconhecido. No entanto, não é fácil para um indivíduo ser um jogador de xadrez de classe mundial se viver numa quinta isolada num país pobre, sem electricidade ou sem computador, ou se passar muitas horas em busca de comida - ou a carregar água para casa. Antes de a internet fornecer a sua magia criadora de poder, é preciso que muitas outras condições estejam satisfeitas.

Moisés Naím, O fim do poder, Gradiva, 2014, pp.18-20.



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