segunda-feira, 19 de maio de 2014

A uma semana das eleições


A verdade é que a linha que está a ser seguida, como a que é visível nestas últimas propostas sobre contratos colectivos e redução de apoios sociais - ainda por cima já no final do programa e com a troika fora de cá -, é não só deprimente como profundamente contrário às regras fundamentais da democracia e do respeito por nós próprios. (...)

uma governação que exagera manifestamente ao exceder todos os limites do razoável (...)

Se somarmos a abstenção e todos os votos noutros partidos e os confrontarmos com os votos na Aliança Portugal [PSD-CDS] acho que vai ser um plebiscito contra o governo (...)

Agora, se houver uma diferença esmagadora - vamos supor 29% contra 40% ou votação parecida - e, embora o Presidente da República não tivesse obrigação de dissolver a Assembleia da República (...) as pressões vindas de todos os lados seriam enormes. Porventura, também dentro da coligação e não sei até que ponto o CDS não alinharia nesse pedido de eleições antecipadas (...)

[Estou] Um pouco triste, porque vejo que o meu país começa a afastar-se do respeito pela Constituição, de certas regras da democracia, da preocupação com o Estado Social e, se quisermos, das funções essenciais do Estado. Estamos a afastar-nos com este governo, infelizmente.

Posso começar por um exemplo ridículo: vai fazer-se um grande encontro no dia das eleições. Em 40 anos de democracia isto nunca tinha acontecido, e não é por acaso. É para demonstrar desprezo por essas regras democráticas que, não estando escritas, resultam do conceito de respeito pelos outros e pelas nossas leis (...) O que a Comissão [Nacional de Eleições] não percebeu é que não se pode estar a interferir com o processo eleitoral no dia em que se realizam as eleições. Isto é lamentável, não tanto porque me pareça que consigam alterar o sentido da votação, mas por revelar insensibilidade àquilo que a democracia tem de mais importante: o respeito pelas regras (...) Foram ver à lei e como nada encontraram que proíba uma reunião desta dimensão, então pensaram "talvez consigamos ainda ganhar uns votos com algumas promessas que faremos ao fim da tarde". É um mau sinal e atrás deste outros virão.(...)

Acho que a opinião pública devia indignar-se mais (...)

Nos  primeiros tempos do programa da troika os portugueses perceberam que desta vez era muito a sério e não se podia brincar, sob pena de ficarmos mesmo na bancarrota. Depois, foram-se habituando e a certa altura, com o alto nível de desemprego e a alteração das Leis do Trabalho, as pessoas tiveram medo de perder o emprego. É isso que explica uma certa passividade dos portugueses! Mas agora têm um meio pacífico, em que não são detectáveis as opções de ninguém: as eleições europeias. Espero bem que estas eleições sejam uma demonstração clara de reprovação a esta situação.

[A abstenção das pessoas] pode ser mais do que cansaço, pois esta crise económica e social fortíssima tornou as pessoas não só descontentes mas diminuídas. Acham que já nada vale a pena, é quase uma renúncia à cidadania activa.

Quem ganhou [com a saída limpa] foi a senhora Merkel, as pessoas que pensam como ela e os países europeus que não quiseram comprometer nem mais um euro numa possível e incerta ajuda futura a Portugal. Não queriam isso e a posição deles vingou. Se houver uma borrasca na Ucrânia ou noutro sítio qualquer, e isso provocar perturbação dos mercados internacionais, lá estamos entregues a nós próprios e sem qualquer garantia de ajuda europeia. Decerto, mas perante uma segunda troika. Ou seja, quem ganhou foi a Alemanha e os países ricos europeus que continuam egoístas.

Diogo Freitas do Amaral, em entrevista a João Céu e Silva, DN, 18/05/14, pp.6-9.


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