quinta-feira, 15 de maio de 2014

Coças de criar bicho


dn-02



Recordo-me do Coiratas, um rapaz de Lordelo, que às vezes chegava à escola gabando a última sova de cinto que dizia ter apanhado do pai. Nunca percebi o motivo daquele aparente entusiasmo e da exibição que se lhe seguia, t-shirt puxada para cima para provar marcas do dia anterior.
No início dos anos 90, havia, até, o professor de História que andava com passo militar dentro da sala, um passo esotericamente grande, como em um parada, cada aula como em uma parada, caricatamente como em uma parada, capaz de levar de uma ponta à outra da sala, em três segundos, um aluno pelas orelhas. E que acertava em três rapazolas, ligeiramente menos silenciosos do que os cânones ditavam – e faz ricochete, dizia –, em simultâneo. Despareceu daquela escola, por entre queixas de alunos e pais, e, talvez, por algum stress pós-traumático que, porventura, o teria acometido. Estava, permanentemente, em guerra.
Os contínuos, por essa época, temiam a directora da escola - mas medo de verdade! – e esta, por seu turno, correspondia, na sua impecável postura altiva e arrogante. E a sociedade era, enfim, muito menos horizontal, como soi dizer-se, do que em 2014.
No Verão passado, li no Trás-os-Montes, de Tiago Patrício, que estas coças bárbaras faziam, também, parte do imaginário transmontano que o autor fixara. Acontece que as tareias, descritas no livro, eram, mesmo, de caixão à cova, dando para duas, três semanas de cama da criança/adolescente (que sofrera o correctivo). Nunca conheci um caso assim – se bem que, e por outro lado, situações como a que o Coiratas relatava estavam, igualmente, longe de se cingir a ele.
Sendo ficcional, o livro de Patrício procura(va), evidentemente, dar (a conhecer) um ambiente - e a(s) cena(s) não parecia(m), pois, em todo o caso, improvável (improváveis), há uns 20/25 anos.
Confesso, porém, que deixar-se alguém de cama, neste meio da segunda década do século XXI, 10 dias, com pancada de cinto, como no caso que há três dias o DN revelou – não já para Trás-os-Montes, mas em Santa Maria da Feira - já me espantou. 
Provavelmente, esperaria que a situação-tipo, hoje por hoje, fosse – e, talvez, até, seja - a de um certo laxismo, um deixa andar, a incapacidade de contrariar a disposição do educando.
Que, mesmo partindo deste pre-conceito vindo de mencionar, se contemporize, no entanto, com actos manifestamente censuráveis (como esses que redundaram em 10 de cama para o menino de 11 anos que escondera notas escolares e fumara às escondidas dos progenitores), como que normalizando-os – quase que os tornando aceitáveis – é algo para o qual o julgador deve estar alerta, evitando contribuir, com uma pré-compreensão bastante conservadora do que é razoável, para o perpetuar de práticas educativas inaceitáveis. O trabalho jornalístico do DN, sobre o caso concreto, foi de grande objectividade - e até, nele, o sublinhado maior, a partir da decisão judicial, se afigurou o mais indicado (pelo mais insólito do argumentado). 


Sem comentários:

Enviar um comentário