sexta-feira, 2 de maio de 2014

Dos debates de professores





A questão para debate de 60 minutos era: No dia-a-dia da escola, nem todas as actividades são sujeitas a avaliação”.


Algumas das questões que procurei trazer à discussão:

Detidos sobre a afirmação apresentada em epígrafe, de imediato nos interrogamos sobre a validade descritiva da mesma, quer dizer, prontamente somos tentados a reclamar uma concretização ulterior dos possíveis significados de que se reveste. Porque, desde logo, podemos perguntar se é, em realidade, possível, que deixemos - mesmo que ao nível do inconsciente - de avaliar uma actividade. Atendendo a que havíamos compreendido que múltiplas poderão ser as acepções, ou âmbitos, da avaliação, consoante estejamos a referirmo-nos aos domínios institucional (escola/agrupamento), profissional (avaliação do próprio professor), de resultados dos alunos, ou dos próprios alunos (sendo que, nesta, se pode recorrer a uma panóplia de modos de avaliar), exemplifiquemos: será que, mesmo não procedendo eu a uma instantânea classificação – de tipo sumativo, com ou sem comentários -, nem tomando registo de uma composição, uma ficha, uma atitude, um gesto, uma dúvida, um comportamento de um meu aluno, não formulei, na verdade, um juízo, ou, inclusive, este não se me impôs, inelutavelmente, e não deixou de estar presente na formulação final de avaliação que produzi? Existirão, portanto, actividades/comportamentos/atitudes suas que não sejam avaliadas? Será tal possível?

Se, por outro prisma, como alguns dos autores, convocados ao nosso debate, sustentam o ensino também se faz de tentativa-erro, não implicará, tal referência, a constatação de que sempre haverá actividades – diferentes media com vista à aprendizagem – que se introduzem em uma primeira vez (na escola, na sala de aula) e, portanto, pela natureza das coisas, não puderam ser avaliadas (previamente)? Mas, introduzidas uma vez na escola, de imediato não passamos a formulações, juízos, teses acerca da bondade/utilidade para a prossecução das finalidades a que estão adstritas? 

Evidentemente, o puro voluntarismo, a inserção de actividades não devidamente ponderadas/cientificamente sustentadas na escola – e, provavelmente, sem o mínimo de exames-piloto para as aferir – é indesejável. Colocar na sala de aula novas tecnologias, em virtude de um deslumbramento tecnológico/com gadgets, sem uma robusta crítica precedente, por exemplo, não relevará de um excesso de responsabilidade. Confiando a comunidade à instituição escola a missão de instruir/educar – um bem demasiado precioso para ser deixado, apenas, aos professores – a dimensão de accountability nas políticas, projectos educativos, currículos, planificação, actividades na escola assume-se como algo de fundamental e nunca negligenciável. Uma escola fechada sobre si própria, endogâmica, não faria sentido em sociedades abertas e plurais. Ademais, a consideração da integral educação constrange cada docente a não ignorar quanto urge que estratégias a utilizar dentro da sala de aula não sejam fruto, exclusivo, da sua imaginação/querer e possam ser debatidas/discutidas/avaliadas em conjunto com outros colegas.
Dito isto, entender-se-á que a mais ínfima actividade de um professor – por exemplo, levar tesoura para abrir envelope de exames – deva ser relatada, descrita, avaliada no seu mais pequeno detalhe (como, aliás, hoje, sucede)? Beneficiará a educação – beneficiarão alunos, pais, professores, escolas – com a existência de um aparelho burocrático asfixiante que não dê o mínimo espaço a actividades não avaliadas (pelo menos, não avaliadas formalmente)? Procurando a escola formar, ou ajudar a formar, simultaneamente, a pessoa, o cidadão e o profissional, de que sociedade se dará conta – como normal/desejável (?) – aos alunos, quando tais práticas são reiteradas na escola?

E, dentro de uma sala de aula, a espontaneidade, o culto da liberdade, o estímulo da expressão e da criatividade, por um lado, o incutir da autonomia, da responsabilidade, do rigor e da disciplina, por outro, seriam possíveis se a cada intervenção de um aluno – e revestisse essa intervenção a natureza que adquirisse; pensemos, a título exemplificativo, em um gesto como o de apanhar a esferográfica de uma colega que caíra da carteira desta, para a devolver – sempre acrescentasse um professor um “Muito Bom”, ou “Satisfaz”, um “bravo, continua assim” ou “isto, desta maneira, não pode continuar”? A obsessão pelo controlo, a regulação sem recantos de um respirar livre, não se oferece, antes, prejudicial à escola?

A frase que encima e origina este acervo de indagações, assume-se como constatação (“há actividades que não são avaliadas na escola”). Procurámos, em certa medida, coloca-la em crise: mesmo que não registemos no caderno, no computador, ou oralmente a avaliação de um aluno, será que nós, professores, não tomamos aquele avaliando pelo conjunto (todo) de actividades/atitudes/comportamentos que revelou, existindo, inclusivamente, actividades deste que em nós se inscrevem, ainda que conscientemente não tenhamos controlado, totalmente, tal inscrição? Radicalmente, haverá actividades do aluno não avaliadas? Coisa diferente, porém, seria sustentar que há actividades dos alunos que não são devidamente valoradas ou valorizadas, actividades que não contariam, devidamente; isto é, um docente, não suficientemente apetrechado, negligenciá-las-ia – seria uma das acepções possíveis da frase exposta? Ou, então, indicar que, diariamente, não se classifica ou comenta, na escola toda a actividade do aluno, ou de cada professor. De um ponto de vista formal, não se avalia tudo.

É óbvio que uma escola que não prestasse contas a uma sociedade que dela espera, findos os títulos aristocráticos, um contributo determinante na composição da hierarquia social – ainda que mitigada, em Portugal, é certo, pela tão forte permanência, no nosso tecido social/profissional, de redes informais de sociabilidade -, estaria a trair a sua missão. Mas, no auxílio à formação do homem todo, e do cidadão com capacidade crítica, a sujeição, sem freio, a um controlo, de perfil burocrático, de toda e qualquer actividade, dos docentes aos alunos, terminaria, eventualmente, na produção de uma sociedade que não respeitasse a autonomia, livre iniciativa, criatividade, disciplina, rigor, numa palavra, responsabilidade e dignidade de cada humano.


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