terça-feira, 20 de maio de 2014

Entre exames


Há 70 páginas com indicações sobre os exames nacionais, modo de vigiar, de organizar as salas, distribuir alunos, abrir envelopes, cuidar dos códigos, rubricar folhas, pautas, horas de chamada, de começo e fim das provas, organizar a escola, etc., etc., etc. que releio, com minúcia, no fim-de-semana. O pormenor da regulamentação não deixa de impressionar. Parecendo tudo muito simples, para quem se estreia nas lides, há sempre nervosismo e ansiedade, não se vá cometer um esquecimento ou lapso fatais. Depois das 8h30, encontro a Professora veterana que me diz vir sempre muito nervosa para os exames, “sempre o pior momento do ano, para mim”. A azáfama junto à escola, naquele início de manhã, é enorme e nota-se cuidado e hospitalidade da escola e sua direcção na recepção a todos, hoje muitos mais do que habitualmente. Ao intervalo, um primeiro respirar de alívio e, de lá longe, vem, numa correria enorme, dos alunos conhecidos, que nos vêem, um abraço reconfortante. Suponho que para ambos: em momentos de maior dificuldade, as figuras de vinculação, para os mais novos, não deixarão de ser especialmente relevantes; e para quem ali se estreia, o afecto, assim demonstrado, é, igualmente, suplemento de alma para o que falta passar. Os professores que explicam português, matemática, meio físico e coisas que tais, não podendo estar nas salas, de imediato se aproximam ao intervalo, querem estar ao pé dos seus, ajudá-los nesta hora difícil, perceber se corresponderam às suas expectativas, resolver uma dúvida, estar presentes. Percebo como, também eles, se sentem participantes e avaliados nos exames.
Para quem se encontra na organização, então, o dia não tem ocaso, tantas as horas de serviço público assim cumpridas. Se para quem vigia, o intervalo de almoço é curto, quase inexistente para quem organiza tudo. Há, ainda, nestas horas, nostalgia com professores que foram nossos, há já mais de década e meia, com os quais tivemos momentos de grande proximidade, de relação intensa mas, evidentemente, em plano de desigualdade, e que, de repente, são colegas: na verdade, não os conseguimos ver dessa forma e a aproximação é relutante, constrangedora, éramos quase outras pessoas.


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