quinta-feira, 29 de maio de 2014

O estado do poder (ele mesmo)




O poder pode ser definido como “a capacidade de orientar ou de prevenir as acções presentes ou futuras de outros grupos e indivíduos”; ou, “dito de outra maneira, o poder é aquilo que exercemos sobre os outros, levando-os a comportar-se de uma maneira que, de outro modo, não se comportariam” (Naím, 2014, p.37). No clássico «The Concept of power», Robert Dahl define, desta forma, o poder: “A tem poder sobre B na medida em que pode levar B a fazer algo que, de outro modo, B não faria” (Ibidem). E, para Michael Barnett e Raymond Duvall, “o poder é a produção nas e através das relações sociais de efeitos que moldam as capacidades dos agentes para determinar as suas circunstâncias e destinos” (Naím, 2014, p.369).
Cumpre compreender que hoje o poder está em um radical processo de mutação, isto é, “a transformação do poder é mais total e mais complexa” (Naím, 2014, p.27) do que possa pensar-se. Na descrição do politólogo/cientista político e ex-ministro Moisés Naím, o poder é, em nossos dias, “mais fraco e vulnerável” do que até há bem pouco tempo, “mais acessível – e, de facto, no mundo de hoje, há mais pessoas com poder. Contudo, os seus horizontes contraíram-se e, depois de adquirido, é mais difícil de utilizar” (Ibidem). As barreiras de acesso ao poder quebraram em virtude de um conjunto de factores: transformações económicas (maxime, rápidos crescimento económico em países pobres); padrões migratórios; difusão das tecnologias de informação; mudanças políticas; alteração das expectativas pessoais; mudança nos valores e normas sociais; melhoria ao nível da medicina e cuidados de saúde; educação massificada e hábitos culturais alterados. Entre estes últimos, de grande relevo a emergência de uma sociedade (mais) horizontalizada (por referência a sociedades mais hierarquizadas que a antecederam; tomamos, mais do que outras latitudes, o Ocidente por referência; vide, Innerarity, 2012). A eclosão dos micropoderes em vários domínios – e note-se como o poder está presente não apenas nas grandes questões geopolíticas entre Estados, como nas empresas, nas organizações, nas universidades, e até na esfera íntima, como a família – pode ter tornado a sociedade menos hierárquica/rígida/inflexível, mas a decadência do poder (ele mesmo) não contém apenas virtudes: “embora possa parecer um bem genuíno que os poderosos sejam menos poderosos que antes (afinal de contas, o poder corrompe, não é verdade?), a sua despromoção pode também gerar instabilidade, desordem e paralisia face a problemas complexos” (Naím, 2014, p.32).


Sem comentários:

Enviar um comentário