quinta-feira, 22 de maio de 2014

Política pura: as coisas são como são


Suponho que, no elogio a Juncker, Marcelo Rebelo de Sousa tenha pretendido europeizar…as eleições europeias, fugindo ao plebiscito ao governo (português), plebiscito este que, em seu entender, seria mais prejudicial ao seu partido do que um puro combate europeu (partido que, recorde-se, fora, expressamente, apoiar a Coimbra). O que se afigurava como uma possível jogada política com inteligência, saindo da ortodoxia muito básica da campanha que foi apoiar, e alargando o espectro dos eventuais receptores do discurso, acabaria por ser mal recebido quer nas suas hostes, quer no comentário político:  “Muito imaginativo”, consideraria um José António Saraiva; foi, deliberadamente, tudo em Marcelo é infimamente planeado, contra a AliançaPortugal, sugeriram os comentadores do Termómetro Político, da RTP Informação (Graça Franco, António Costa, João Marcelino).
Marcelo Rebelo de Sousa já exprimiu, por várias vezes, o seu entendimento do partido como uma família; já estendeu a mão a todos os líderes que se lhe sucederam, apoiando-os em campanhas eleitorais, mesmo estando pessoalmente em desavença com estes; vai a Coimbra de propósito participar na campanha e exorta, ademais, na TVI, os restantes ex-líderes do PSD a fazerem o mesmo; precisa do apoio do seu partido (mais CDS) para qualquer aspiração presidencial; ainda no recente congresso do PSD tudo que é comentador postulou que a ida do Professor ao congresso foi para ‘ganhar’ o partido para as eleições de 2016 e, tudo isto dito, consegue agora afirmar-se que foi ao jantar de ontem fazer mal, de propósito, à coligação? Não tem lógica nenhuma.
Diferentemente, se poderá constatar que o dia, ou a noite, lhe correu manifestamente mal, porque esperar-se-ia que um comentador e político tão experimentado fosse capaz de antecipar as reacções (adversas) na ‘família’ ao discurso a produzir, independentemente das intenções do mesmo, que, a meu ver, não eram as que se lhe atribuem (com custos no desgaste político interno para futuro).
Mas, voltemos ainda: esperar-se-iam grandes elogios ao desempenho de Paulo Rangel e Nuno Melo, por parte de Marcelo, nesta campanha? Seria caso singular – repare-se, recorro de novo aos exemplos dos directores do Diário Económico, Diário de Notícias e Rádio Renascença -, quando tantos têm, justamente a meu ver, sublinhado o quanto o cabeça de lista da Aliança Portugal está tão aquém de si mesmo, do reconhecido mérito intelectual e político (que lhe é comutado; de Nuno Melo já não se poderá dizer o mesmo; não tem sido uma desilusão, porque nunca foi uma ilusão). Marcelo, que em muitas outras ocasiões elogiou, de maneira substantiva, Rangel, se assume um perfil senatorial ou presidenciável, iria, nesta ocasião, e após o tom mais panfletário do cabeça-de-lista às europeias, colar-se a ele? Seria isso razoável?
Finalmente, não deixou de ser divertido notar que, durante o seu discurso de terça à noite, procurando seguir o guião do elogio aos patriarcas de ambos os partidos da coligação, Marcelo, depois de citar Francisco Sá Carneiro se visse na obrigação, por consequência, de dizer que o voto na Aliança Portugal dignificava, também, Diogo Freitas do Amaral – em uma afirmação que, segundo a TSF, desgostou, manifestamente, Nuno Melo…como, adivinhamos nós, certamente, o próprio Freitas do Amaral.
Aí, terá pensado Marcelo, depois de tardes gloriosas no Coliseu, há noites em que, por mais vontade, bondade e coerência discursiva que se queira ter, não se pode sair rua.


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