sexta-feira, 6 de junho de 2014

A importância das pessoas e das ideias no debate do PS


Tem acontecido muito isto, ao longo das duas últimas semanas, nos diálogos sobre e no interior do PS: um notável, um senador declara apoiar um dos candidatos. Imediatamente de seguida diz que é de lamentar a fulanização (quando não, pasme-se, o ‘egocentrismo’) presente nesta campanha e que o que é importante é discutir ideias, propostas, programas. Isso, garantem, é muito mais relevante do que discutir pessoas. Como facilmente se percebe, este argumentário tem surgido, sobretudo, do lado dos apoiantes de António José Seguro que imputam a António Costa uma pura ambição pessoal na disputa pela liderança do PS e, concomitantemente, uma ausência de programa e de propostas. Ponderemos, pois, o argumento.
‘Joaquim’ declara, um dia após a manifestação de disponibilidade de Costa, apoio a Seguro. Imediatamente, reclama um grande debate de ideias, porque isso faz falta e é “necessária uma grande reflexão na social-democracia europeia”. Antes, porém, de perceber quem compreendeu melhor a dita crise e para a debelar melhores argumentos apresenta, já ‘Joaquim’ escolheu em quem votar. ‘Joaquim’ entra realmente para o diálogo eleitoral disposto a escutar ideias do adversário do candidato que apoia? Se “sim” – como, aliás, se deve partir para qualquer reflexão séria - pode até acontecer ter sido ‘Joaquim’ convencido de que o programa contrário ao do candidato que apoia é melhor do que o daquele a quem já garantiu o voto? Se “não”, isto é, se não está disposto a ouvir as propostas e sugestões do candidato adversário que interesse, afinal, tem o senador na discussão? Imaginando que foi convencido pela argumentação do adversário do candidato a quem, publicamente, prometera o voto tirará ‘Joaquim’ as consequências completas dessa radical (de raiz) mudança e votará de modo oposto ao inicialmente indicado, mesmo sendo apodado, utilizando uma expressão já utilizada por outro senador do PS, de “troca-tintas”? Se foi convencido, mas insiste em votar no candidato que desde a primeira hora apoiara, tal significa que deu mais valor à dimensão pessoal, ou à das ideias/programas, neste debate interno do PS? Há a alternativa de entender que é uma questão de valor – coerência, lealdade, etc. – a que prima (mas prima, pois, sobre o dito programa).
Com excepção de António Vitorino que, pelo menos publicamente, afirmou ir esperar pelo debate e programas dos dois candidatos à liderança do PS para definir em quem votar, não vi mais um único exemplo, entre os socialistas que passaram pelos media nesta quinzena, que fizessem depender o seu voto de qualquer questão programática e de qualidade reflexiva e propositiva dos dois candidatos. Embora de um deles já conheçamos, após três longos e penosos anos, a qualidade reflexiva e propositiva – e da reacção a cada momento político e a cada agenda colocada em cima da mesa - e do outro se pretenda que delineasse a partir de 10/15mn semanais e 2/3 temas diferentes, a cada 7 dias, um programa de governo que salvasse Portugal.


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