segunda-feira, 9 de junho de 2014

ABSTENÇÃO: A CAUSA DAS COISAS


Quando buscamos as causas últimas do fenómeno da abstenção, importa não ficarmos pela superfície. A leitura em profundidade de Benjamin Constant, há mais de dois séculos, para a qual, agora, Soromenho-Marques de novo nos convoca, apresenta-se-nos com uma frescura e uma capacidade explicativa irrecusáveis: “Se para um cidadão grego, a participação cívica, pelas palavras e pelos actos, na condução dos negócios da cidade, constituía a ocupação mais elevada, aquilo que distinguia o cidadão de pleno direito da multidão dos escravos, dos servos e das mulheres, para o eleitor das democracias modernas, a política ocupava a parte menor de uma vida dominada pelo enorme poder de recompensa que a esfera do trabalho podia permitir a cada um. Com efeito, se para o antigo grego, era a vida privada que parecia obscura perante o esplendor da participação cívica, para o cidadão moderno, educado no lema do «tempo é dinheiro», todo o esforço e atenção pareciam ser dedicados aos projectos pessoais, ao enriquecimento económico, ao incremento das fontes de prazer e conforto, para si e para a sua família. A obscuridade deslocava-se da esfera privada para a pública, reduzida a um conjunto de rituais cívicos despachados com urgência. Pelo contrário, era o âmbito privado que gozava de um inegável brilho próprio. Era o próprio Constant que identificava o primeiro de dois perigos fundamentais da democracia moderna emergente: «O perigo da liberdade moderna consiste em que tão absorvidos que estamos no gozo da nossa independência privada e na perseguição dos nossos interesses particulares, acabemos por renunciar demasiado facilmente ao nosso direito de partilhar o poder político»” (Portugal na queda da Europa, p.296/297)


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