segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ambições


Sempre me pareceu bem a existência de primárias nos partidos, no sentido de procurar limitar a força dos aparelhos, de procurar pôr travar aos gangs do multibanco e trazer ar novo, um fora, a forças que são indispensáveis em democracia. Elogiei, por isso, a proposta de Francisco Assis, há três anos, e vi, ainda há um, como no PS esse caminho estava bloqueado. A candidatura de António Costa teve, per se, um duplo efeito desbloqueador: obrigou Seguro a reposicionar-se à esquerda (diria, até, mais do que Seguro, o próprio Partido Socialista, dadas as declarações, na apresentação do programa, feitas por Costa; na entrevista ao I, Alberto Martins diz que o PS deve recusar qualquer Bloco Central e aliar-se à esquerda em caso de inexistência de uma maioria absoluta); e fazer emergir um conjunto de propostas de alteração de funcionamento do sistema político-partidário (primárias, escolha de deputados em lista, diminuição do nº de deputados…). Todavia, esperar-se-ia que as soluções não surgissem do dia para a noite. Em política, as estradas de Damasco parecem derivar mais de puro tacticismo do que de convicção. Seja como for, a bondade das medidas será posta à prova no terreno. “O PS tem à volta de 90 mil militantes. Se nós duplicarmos ou triplicarmos aqueles que vão escolher o candidato a PM é um passo brutal numa revolução política na vida dos partidos, que nós estamos a dar (…) Se triunfar, é uma experiência irreversível na democracia portuguesa” (Alberto Martins, p.23).
Embora o objectivo pareça excessivamente ambicioso e pouco exequível, a verdade é que se tal sucedesse – duplicação ou triplicação dos 90 mil – também qualquer alegação de chapelada (isto é, alargamento dos gangs referidos) ficaria sem possibilidades de ser evocada. Por outro lado, como lembra A.Martins houve, mesmo assim, 1 milhão de portugueses a votar no PS, nas europeias, pelo que as possibilidades de alargamento do universo eleitoral interno são fortes.


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