quinta-feira, 19 de junho de 2014

As ideologias no contexto cultural


Mas a incapacidade da esquerda deveu-se também em grande parte à capacidade da direita, nomeadamente ao facto de ela aparecer no século XXI mais em sintonia com uma já longa evolução histórica (em boa parte antecipada por Tocqueville) que consagra os valores do individualismo, do hedonismo e do consumismo nas sociedades democráticas.
Uma direita cada vez mais sem complexos - na verdade, uma "nova direita" - que deixou discretamente cair as questões tradicionais ligadas à moral e aos costumes, assumindo o liberalismo moral e optando por se situar no eixo da nova conjunção histórica da finança com a globalização e com os media (…)
Como há dias escrevia sabiamente Alain Touraine, a esquerda tem de compreender urgentemente que não é possível conduzir uma política social e uma política económica a não ser associadas, em todos os planos, uma à outra, nunca em guerra uma contra a outra. (…)
E para quem acredita na doutrina dos ciclos - é o meu caso -, 2015 não anuncia nada de bom. Desde 1987, com o primeiro abalo da era eletrónica, que todos os sete anos a crise surge ou se agrava: 1994, 2001, 2008. Em 2015 poderá ser bem pior, pois as bolhas têm-se multiplicado, mas a margem dos Estados é agora quase nula e o mundo vive hoje tensões bélicas de uma intensidade há muito desconhecida.


Manuel Maria Carrilho, DN, 19/06/14


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