sábado, 14 de junho de 2014

Do 'medo de existir' (2014)


Maria Leonor NUNES, (entrevista)  José  GIL, Metafísica do quotidiano, Jornal de Letras , ano XXXIV, número 1140, 11 a 24 de Junho, 2014, 29-30

Há nove anos que o filósofo, mensalmente, toma o pulso ao país na revista Visão em breves ensaios que agora reúne em livro: uma leitura sobre os factos políticos, as forças e mecanismos sociais, o modo de ser português

É uma “metafísica do quotidiano” que José Gil procura nos seus textos da Visão que agora publica em Pulsações. E, nessa medida, não pode deixar de concluir que é de uma “grande pobreza e falta de cultura”, a metafísica do governo de Passos Coelho. Da mesma maneira que conclui que António José Seguro não é um líder, encontrando na falta de liderança uma explicação para os resultados eleitorais do PS, como adianta ao JL.
O filósofo lê os gestos, os acontecimentos políticos e sociais, por vezes episódios e circunstâncias de outra natureza, e ensaia nas suas crónicas ou “micro-ensaios”, como lhes chama, uma leitura mais profunda, além da espuma dos dias, do senso comum, do imediatamente legível, do modo de ser português. O que interpela são as forças, os mecanismos de funcionamento, as lógicas internas, simbólicas, o não expresso. Interroga por exemplo por que os portugueses não protestam mais ou parecem resignar-se aos sacrifícios impostos. No prefácio do volume agora editado pela Relógio d’Água, encontra razões basilares do comportamento do português: uma situação de permanente “duplo impasse”, uma “pescadinha de rabo na boca” entre o sonho de avançar e o real que faz recuar, os fortes “laços de afetividade” e um “silêncio” inconsciente e atávico, interiorizado no fascismo, e que prevaleceu até hoje, traduzido no medo de se exprimir, no limite de existir. Um modo de ser português em que a “lei da troika” veio desferir um profundo golpe.
Portugal, Hoje O Medo de Existir é, de resto, uma das obras de referência de José Gil, 74 anos, prof. catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, autor de Em Busca da Identidade, Metamorfoses do Corpo, Monstros, A Arte como Linguagem e O Devir-Eu de Fernando Pessoa, entre outros. Pulsações junta as crónicas publicadas entre 2005 e 2014. Não se tratará apenas de um exercício de filosofia política ou de politologia, como reconhece. É seguramente um olhar que pensa a realidade portuguesa e abarca o pulsar do mundo.

Jornal de Letras: Como sente, no conjunto, as suas Pulsações?
José Gil: O que queria fazer, e possivelmente faço um pouco, era delinear aquilo que se pode chamar uma metafísica do quotidiano. Porque uma medida no ensino ou mais uma taxa de solidariedade pressupõem sempre uma ideia do homem, do futuro do ser português. Esse pressuposto é essa metafísica. E o que verifico é que a metafísica por trás das medidas deste governo é de uma enorme pobreza e falta de cultura.

Voltou a ler todos os seus micro-ensaios: como avalia esse corpo de trabalho, de análise da política e da sociedade portuguesa que constituiu ao longo destes anos?
Ao reler tudo, tive a sorte de apanhar aquilo de que sempre andei à procura desde que escrevi Portugal, Hoje O Medo de Existir.

Que é...
A lógica dos mecanismos que produzem esse medo de existir e que fazem com que o português tenha medo de avançar. Porque o português quer avançar, mas quer que outros façam o trabalho por ele. Por que não avança? Esse estado de obediência implica todo um nexo lógico que faz com que as forças que se querem exprimir inflitam o seu rumo e venham para trás, sem que nos apercebamos disso. Por isso, senti necessidade de escrever o prefácio, em que de alguma maneira abordo esse funcionamento.

Encontrou linhas que se cruzam nos seus micro-ensaios?
Sim, nos artigos sobre política, há uma insistência nessa lógica das forças. Além disso, há um conjunto de crónicas que já não tem a ver com a política e onde talvez estejam aquelas de que mais gosto.

Quais?
Por exemplo, uma a que chamei A arte de descansar ou uma outra que escrevi sobre um gorila.

É curioso que hoje o medo parece mais visível na sociedade portuguesa do que na altura em que escreveu o seu livro Portugal, Hoje O Medo de Existir.
Sem dúvida. E entretanto foram publicados vários livros sobre o medo. A verdade é que há hoje um medo de superfície, de perder a casa, o emprego, a reforma... Mas que radica e enxerta-se no medo mais profundo de não viver, de não se exprimir. No fundo o medo de não existir torna-se ele próprio um medo de existir.

País Para a Cova

No prefácio do seu livro, sustenta como a ‘lei da troika’ constitui um rude golpe no próprio modo de ser português, nas relações de afetividade, que em seu entender, têm constituído uma pedra angular da sociedade portuguesa, na própria relação com o território, em paralelo com o empobrecimento do país, a falta de perspetivas de futuro ou de mudança.
O que me aflige verdadeiramente é a falta de consciência, de visão dos nossos governantes relativamente a domínios como a saúde ou a educação. A educação é o que pode salvar o país e o que se está a fazer nessa área leva o país para a cova. Falo com muitos professores, meus antigos alunos, e é esse o sentimento geral. Que será Portugal no futuro? Um país pobre, possivelmente não ao modelo do que tínhamos antes do 25 de Abril, mas talvez uma outra pobreza. Vamos estagnar, não nos vamos desenvolver, não vai haver um programa de modernização, como dizia José Sócrates. E estagnação, porque não vejo nenhum plano, nem de desenvolvimento económico, de que o Governo tanto fala. Por que não trabalham nisso? Talvez os ‘poderes instalados’ impeçam a conceção e realização desses planos.

Com a ‘saída’ da troika, o que pode mudar?
Vai ser a mesma coisa, talvez de uma maneira um pouco atenuada. Ou seja, a confusão, as imagens baralhadas de dois poderes, o português e o estrangeiro, que na verdade tem mais poder. Tudo isto baralha um pouco a cabeça das pessoas. Estou convencido de que o facto de não haver um alvo bem claro e nítido é um dos fatores que explicam não haver mais oposição nas ruas. Outro fator importante é a emigração. A sobreposição de poderes faz com que não se saiba contra quem verdadeiramente protestar. E o governo de Passos Coelho não vai tornar-se esse alvo claro, porque continua a haver a supervisão da troika. Isso serve-lhe, de resto, muito bem. O programa do governo e da troika, medido em décadas, é uma catástrofe para Portugal.

Fala também no seu livro de um silêncio inconsciente que está na base da sociedade. Como vê nesse sentido o aumento da abstenção nas europeias?
Tem que ver com a desconfiança relativamente aos políticos e aos partidos, sobretudo ao PS, ao PSD e ao CDS. Não foi porque as pessoas foram para a praia, como já se disse, nem sequer porque os portugueses não se interessam pelo sistema democrático. Fizeram-se muitos inquéritos e o que ouvimos foi dizerem que não acreditavam nos políticos, por isso não iam votar.

Uma forma de protesto?
Sim, ainda que os interrogados não consigam definir os parâmetros do protesto. Não dirão que é porque não há um espaço público aberto, mas é realmente porque não se podem exprimir, porque há um pacto de silêncio.

As europeias revelaram também votações expressivas em Marinho e Pinto (MPT) e, menos, num novo partido, o Livre. Isso é revitalizante do próprio sistema político e partidário?
Julgo que isso é um signo, um sinal do não expresso que os partidos existentes não conseguem exprimir. Há um espaço de não expressão aberto para outras vias. Parece-me que os 7,5% de Marinho e Pinto vieram de pessoas de esquerda e de direita, por ter qualquer coisa, numa ténue linha de fronteira entre a democracia e o populismo. Mas na medida em que são um sintoma, julgo que esses partidos não vão vingar. A votação mostra que o leque partidário era lacunar. Mas não me parece que seja o embrião de um novo sistema partidário português.


CONGREGAR FORÇAS

Perante os resultados eleitorais, a derrota da direita, o PS numa disputa de liderança, como toma hoje o pulso ao país, à nossa democracia?
Parece-me que as pulsações são fracas...

Mas o estado não é crítico?
Não, claro que não. Temos uma Constituição, instituições. Fazendo uma reflexão sobre o estado do país, é inevitável falar sobre a situação no PS, como aliás fiz na última Visão. Este governo impôs ao povo português tanta austeridade e tanto sofrimento não contabilizado, e, depois de três anos desta política insuportável, o que é que o PS tem para apresentar como balanço do seu trabalho de oposição? Nem 4% a mais. É um saldo positivo, mas incompreensível.

Qual a sua explicação?
Para mim esse resultado tem fundamentalmente a ver com a liderança.
A crónica a que se referiu era focalizada nessa questão.
O título era mesmo: “O que é um líder?” E o atual secretário-geral do PS, António José Seguro, não o é, como procurei comprovar.

E o que faz um líder?
Ser um foco de atração, de transmutação e de emissão de energias intensas. Por isso provoca adesões, tem uma espécie de autoridade natural, congrega as vontades que se expressam confusamente e dá-lhes uma voz.

Essa ideia não pode ser muito perigosa?
Pode-se em alguns casos descambar para um tirânico, populista. Mas um líder não é um chefe que submete, que comanda e quer obediência. Nestas questões do PS tem-se confundido aliás obediência com fidelidade. Na verdade, um líder prolonga as vozes que não são expressas.
Isso implica um poder oratório e de contágio. Quando se dizia que De Gaulle encarnava a França era porque quando ele falava, não se ouvia o sr. Charles De Gaulle, ouvia-se outra coisa. O líder é uma pessoa habitada por um sentido. Seguro não tem nada disso, é um homem simpático e terrivelmente mediano.

António Costa é um líder?
Não tenho a certeza que tenha as condições para o ser, nem razões para pensar o contrário. Mas no caso de se tornar secretário-geral do PS pode revelar-se um líder, capaz de congregar as forças da sociedade e dizer o que o povo quer dizer. Parece-me muito grave que, por razões estatutárias, de secretaria, o PS possa acabar por se estilhaçar, por ir dividido às legislativas e não ganhar, um estilhaçamento que terá consequências graves para a esquerda.

Põe a tónica na questão da liderança, mas a alternativa não tem que passar também por um programa?
Numerosos estudos dizem que o fator emotivo, afetivo, é muito mais importante na definição da liderança e do líder do que o fator cognitivo. Mas não nego a sua importância. Aliás, uma das razões por que um líder é líder, é porque vê mais longe e toma decisões mais rapidamente. Mesmo aí é importante. O erro é pensar que se decide apenas por diálogo e argumentação. Por isso, gosto de usar a noção de forças que se investem de fatores de comunicação afetiva, mas também de cognição. Uma ideia brilhante, nova, é uma ideia que suscita forças. Se não houver uma alternativa pertinente e eficaz, capaz de provocar a adesão popular na esquerda, o Governo vai continuar a sua política de incompetência e empobrecimento do país.

Na Europa, assistimos à ascensão de eurocéticos, da extrema-direita e mesmo de partidos neonazis, que vão tomar assento no Parlamento Europeu. Adensa-se a ameaça de desmantelamento da própria União Europeia?
Essa emergência é justamente o sinal de que a Europa está realmente partida aos bocados. Não há uma União Europeia. A crise económica e financeira revelou-se uma extraordinária crise social. É aproveitando-se do caos em que a Europa se encontra, que a extrema direita está a subir. Há o medo que esse fenómeno alastre e pode acontecer. No pior dos cenários, teríamos um fascismo europeu. Seria horrível. Mas não podemos descartar essa possibilidade. Sobretudo não devemos relativizar, dizendo que Marine Le Pen é apenas um epifenómeno da sociedade francesa. Não, não podemos desvalorizar essa extrema direita, porque justamente joga nas ruínas, na ausência de política que faça uma efetiva união europeia, retomando e reformulando uma série de regras da democracia, que não têm funcionado. E se analisarmos a questão em termos de forças, o que verificamos é que a extrema-direita é capaz de as intensificar.

Em que sentido?
O fascismo, o nazismo são capazes de entusiasmar, de congregar forças, enquanto a democracia segrega aborrecimento, não entusiasma. Isso é muito grave. É preciso fazer com que a democracia entusiasme.




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