quarta-feira, 4 de junho de 2014

Genuíno




Genuíno, popular, megalómano, verdadeiro, marialva, assim o Jorge Jesus da extraordinária entrevista dada ao Sol, no passado fim-de-semana (com muito replicado, depois, na participação em programa da SicNotícias). Para lá do self made-man que chegou a trabalhar, aos 15 anos, como soldador numa fábrica, sendo estudante-trabalhador-futebolista, chegando a cair, extenuado, em cima de uma sopa comida, em casa, à meia-noite - e como júnior vai já ganhar mais contos de rei do que o pai; para além de um acidente, em busca da educação sentimental, que resultou em 32 pontos na sua cabeça (“se não morri naquela altura, não morro mais”); deixando-se o pitoresco de afirmar que muito diziam de si por ter andado 10 anos consecutivos vestido de preto, bocas de quem não sabia que o fazia por estar de luto de sua mãe, ou de o vermos completamente vegetariano (não come carne há 30 anos: “não sei se enjoei…”); dando o devido desconto à introdução, a nível mundial, que para si reclama, das marcações à zona, nas bolas paradas; achando interessante a ideia de um treinador-criador, sem cópia da noção e do treino alheio – no fundo, repetindo o que Mourinho dissera quando sobre os treinos referia partir de uma dada teoria, mas depois, criando neles, remetia, essa prática, para nova necessidade de teorização; vendo bem que durante os jogos, os mais complicados em particular, será necessário utilizar diferentes sistemas de jogo – Jesus remete esta ideia para um futuro-próximo, como algo de vanguarda, mas, na realidade, a acreditar no Mourinho interista, em Itália isto sucedeu várias vezes, com o agora técnico do Chelsea (face, no entanto, ao treinador dos blues, onde todas as afirmações são calculadas ao milímetro e auto-compreendidas como instrumentais, a exposição de Jesus é muito mais franca, verdadeira); ficando um retrato de um certo Portugal dos anos 1990 – o cobrador de quotas do F.C. Felgueiras que lhe aponta uma pistola à cabeça após alguns maus resultados do treinador naquele clube; um sexagenário que, em Guimarães, em treinando ele o Vitória, lhe desfere uma bofetada, após derrota em casa com o Gil Vicente, mas que apodado de cobarde pelo treinador logo segue de braço dado com este, por entre a multidão; os pescadores em Olhão a darem, logo de madrugada, peixe aos jogadores do Olhanense com salários em atraso; plasmando-se a idiossincrasia de um treinador que participando em refrega com o técnico do Tottenham na Liga Europa, vem agora dizer que gosta muito deste, por ele ser destemido (e, portanto, não se ter amedrontado com ele próprio, Jorge Jesus…) de tal modo que o treinador do clube da luz deu salto do sofá quando, posteriormente ao desacato em Inglaterra, em jogo para a Premier League, os londrinos marcaram o terceiro golo após terem estado a perder 0-2, ou, quando provocado pelos jornalistas quanto ao sucesso face ao público feminino, refere que “a minha mulher já está habituada a sofrer” (para além de assinalar a 'linguística dos bairros', onde 'grande' é 'gande', por exemplo; daí que "eu não sou o Eça de Queiroz"); uma das notas salientes diz, no entanto, respeito à imprensa desportiva portuguesa. Depois de os comentadores do costume tudo terem dito de Vítor Pereira, ex-treinador do FCPorto, por este ter afirmado que o slb de Jorge Jesus recorria a bloqueios nas bolas paradas – qualificando tal referência como mentirosa, como desculpa, inexistente, etc.; um maduro disse, mesmo, na televisão, em tom de gozo, que os bloqueios eram no basquetebol -, vem agora Jorge Jesus confirmar que não só utiliza os ditos bloqueios, como os foi ‘buscar’ ao basquetebol, como, também aqui, foi ele o primeiro a utilizá-los a nível mundial (sendo agora copiados por outros treinadores). Apenas um entre mil exemplos, de uma imprensa que não só veste a camisola – e, incessantemente, a mesma - sem o menor auto-questionamento como é mais papista do que o Papa.


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