domingo, 15 de junho de 2014

Mundial 2014: primeiras notas. Sterling e a sucessão ao trono





1.Depois de três mundiais consecutivos intranscendentes, o Brasil 2014 já nos ofereceu dois jogos memoráveis: Espanha-Holanda e Inglaterra-Itália.

2.Antes do formidável voo de Robin van Persie, na passada sexta-feira, havíamos ficado, se bem me lembro, no slalom fantástico de Michael Owen, em velocidade e finta vertiginosa sobre a defesa das pampas, estávamos ainda no século passado, 1998. Antes do domínio prodigioso de Arjen Robben, da simulação de Andrea Pirlo e do bilhar às três tabelas entre Sterling, Rooney e Sturridge permanecíamos na finta solar, do 10 puro que era Oriel Ortega e na desmarcação extraordinária de Dennis Bergkamp no Holanda-Argentina do mundial francês. O futebol regressou ao Mundial.

3.Não é preciso ser grande adivinho para perceber que Austrália, Camarões ou Grécia não passarão à segunda fase do Mundial 2014. A falta de talento na selecção grega faz, de facto, da presença na competição um feito. Se Samaras é o melhor do onze inicial e joga quase a extremo, não se pode esperar muito da equipa helénica.

4.Não enterrem já a Espanha. Não foi tão má como o resultado frente à Holanda parece indiciar. Durante largos minutos da primeira parte, conseguiu, simultaneamente, um domínio e controlo de jogo, em qualidade, que não vi ainda replicado. Se não colapsar psicologicamente no jogo com o Chile – os minutos iniciais do encontro poderão ser determinantes -, pode ir muito longe. E com jogadores com a experiência de Xavi, Iniesta ou Silva é expectável que a equipa não colapse. Vicente Del Bosque, reagindo com a elegância habitual, no final do jogo garantiu que não haveria revoluções. Julgo que deve ser esse o caminho. Mudar uma identidade porque se perdeu um jogo – mesmo por números estratosféricos – faria pouco sentido. Identidade, contudo, que com a presença de um avançado com as características de Diego Costa – muito solicitado em profundidade, em um jogo directo – fica um pouco em causa. Foi melhor a Espanha, nos últimos campeonatos, sem um 9 clássico, do que com ele. Cesc Fabregas será, provavelmente, a melhor opção para o jogo associativo. Caso contrário, mesmo sem a intensidade de outrora, David Villa parece-me o avançado mais ligado com o (restante) conjunto. O oportunismo de sempre apontou o erro infantil – evidente – de Casillas. Há 4 anos, na final da África do Sul, quando parou o magnífico Robben isolado, dando, a poucos minutos do fim, o 0-0 que permitiria aos espanhóis ir a prolongamento e ser campeões do mundo, onde estavam os heróis?

5.Será interessante de seguir a diferença de estilos no jogo a eliminar entre uma Croácia muito racional, calculista até, linhas baixas e um México, mais anárquico, mais solto, mais festivaleiro, mais errático. Num encontro sem a possibilidade de perfeita analogia, mas com alguns traços que podemos aqui convocar, entre o apolíneo italiano e o dionisíaco inglês, prevaleceu o primeiro.

6.Com excepção de Joel Campbell, da Costa Rica, todos os demais destaques individuais nos jogos até agora disputados, neste mundial, foram de jogadores já celebrizados neste desporto: Neymar e Óscar, Robben e Van Persie, Sterling ou Balotelli.

7.Além de dois jogos para recordar, o Mundial teve já duas grandes surpresas: Espanha-1-5-Holanda e Uruguay-1-3-Costa Rica.

8.Apesar da vitória histórica sobre os espanhóis, não se pode dar por garantido um grande Mundial holandês. Com Sjneider longe do fulgor de outros tempos, o meio campo laranja é não só muito faltoso – terrível De Jong – como muito pouco criativo (ou criador de jogo). Mesmo com os astros de Manchester United e Bayern na frente, pode ser curto. Estou em crer que será.

9.Um dos grandes méritos uruguaios nas últimas competições em que entrou foi o espírito de grupo, um trabalho intenso, sacrifício, luta. Tudo aspectos completamente ausentes do jogo com a Costa Rica, em uma displicência totalmente inesperada. Uma vez mais, a identidade, quando traída, dá de si.

10.Até agora ainda não vi uma grande exibição de um guarda-redes neste mundial. Não se terão proporcionado para isso os jogos. Apenas uma menção honrosa, para Keylor Navas, da Costa Rica.

11.Já na fase de apuramento para o Mundial fiquei com a sensação de que a Colômbia tem jogadores para um jogo bem mais bonito do que aquele que acaba por praticar. Os 3-0 frente à Grécia ocorreram num paupérrimo desafio de futebol. E até me parece que Pekerman conhece muito bem o jogo. Que se passa?

12.Cinco jogadores do Liverpool, a sensação futebolística do ano em minha opinião, são titulares na Inglaterra. Sterling e Sturridge, dois dos mais excitantes jogadores da temporada, voltam a encantar. Mas aos ingleses falta um Coutinho, um 10 que saiba pausar o jogo, algo que não assenta às características de Rooney e que também não vi em Barkley quando entrou. Roy Hodgson nunca foi um aventureiro, mas com uma espécie de 10 ao lado de Gerrard e Henderson poderia vir a confirmar-se com o líder do mais interessante projecto futebolístico deste Mundial. Seria, para regressar à metáfora de Jurgen Klopp, juntar o heavy metal – velocidade furiosa não falta a esta Inglaterra – com a música clássica (a pausa e harmonia que faltam). Mais uma vez se prova que uma selecção que aproveite uma espinha dorsal de uma equipa tem tudo para fazer uma grande competição.

13.Admira-me que uma equipa que aposta tudo na mobilidade dos jogadores da frente e que gosta de jogar com um falso 9, como o Barcelona, não pense em Sturridge e/ou Sterling como reforços para os anos vindouros.

14.Poderá Sterling, que joga muito aos 19 anos, entrar na luta pela sucessão ao trono – bola de ouro – e vir a ultrapassar Neymar nessa corrida, ou nem por isso? O mundial poderá ditar outras contas, mas a época foi muito mais do jogador dos reds do que do dos blaugrana.



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