sábado, 21 de junho de 2014

O sentido da vida: uma pergunta moderna


Hans Kung, em Aquilo em que creio (Temas e Debates, 2014), faz notar que a pergunta pelo sentido da vida é uma interrogação iminentemente moderna. Quer dizer, a questão, para os contemporâneos da Bíblia hebraica, do Novo Testamento ou da Idade Média, nem se colocava: Deus e os seus mandamentos, como desde tempos imemoriais (era a evidência da resposta não necessitada de requerer explicitamente). A comunidade (crente) apoiava e suportava tal fé; nenhuma razão, pois, para divisar um sentido específico para uma vida individual (p.97). O primeiro a colocar o problema é o jurista e teólogo João Calvino que responde no Catecismo de Genebra, 1542, que a finalidade da vida humana é conhecer a Deus, porque Este nos criou e pôs no mundo para ser glorificado. Só no séc.XVII a interrogação chega aos catecismos católicos que apenas no século XX, e não sem ambiguidades, remetem para a felicidade terrena, um dos desígnios da existência. 
E é em pleno séc.XX, e depois da II Guerra Mundial, que muitos vêem no trabalho o sentido da vida; outros, detectam-no na autorrealização; ou, ainda, na multiplicidade de experiências/vivências. Em cada âmbito (parcelar), algo de verdadeiro, no tocante ao fundamental ao humano, se tocará, mas, ainda assim, são pequenos sentidos, à espera de uma resposta englobante. Como aceitar, sem esperança alguma, a quotidiana dificuldade extrema vivida num bairro pobre de Bombaím, numa favela do Rio, na escravatura do Níger? Como não esperar uma justiça final para os que passaram pelos campos de concentração nazis, ou de Mao? Como não pensar na criança que morre precocemente, "não existe então, pergunto-me, justiça alguma? Mais, para que estavam sobre a Terra? E porque estamos sobre a terra, nós, a quem as coisas correm relativamente bem?" (p.122). A resposta de Kung procura não cair em dois pólos (extremos, de cariz oposto): o naturalismo que vê no humano apenas biologia, absoluta igualdade (humana) com as demais espécies, ausência de valor e sentido (superiores); e o construtivismo como sistema que vê no sentido uma construção puramente humana, sem que esteja, de algum modo, vinculada à realidade; puro artifício. Não nos enganemos: "esse sentido tem de ser encontrado [não criado, atente-se!] por cada pessoa - cada homem e cada mulher - por si mesma, no seu próprio círculo de vida, maior ou menor". Em completa fidelidade à terra. Porque, mesmo de um ponto de vista muito pragmático, aliás, sobretudo nele, o sentido da vida - como resposta intelectualmente coerente que cada um dará - torna-se (resposta) fundamental para si próprio, em momentos de crise, momentos pelos quais, todos, humanos, passamos e que - sem esta robustez, esta resposta procurada e, de alguma forma, minimamente encontrada, com verdade e seriedade -,em chegando pode conduzir ao abismo. Por isso também, defende justamente o teólogo suiço, recorrendo a Max Weber, o professor devia ter como uma das grandes missões, sem proselitismos de espécie alguma, mas "com integridade intelectual", ajudar os seus ouvintes a atingirem a "clareza"; numa palavra, "obrigar o indivíduo - ou, pelo menos, ajudá-lo - a prestar contas a si mesmo do sentido último dos seus próprios actos", para que possa decidir entre "as possíveis atitudes últimas perante a vida".


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