quarta-feira, 18 de junho de 2014

Paradigmas comunicacionais (III)


A casa organizada sobre a sala (e seus sofás), partilha, controlo (parental), colectivo, autoridade, hierarquia, passividade, deu lugar, em uma significativa medida, a uma “cultura do quarto” como espaço do indivíduo (e do individualismo), autonomia, autoridade negociada senão desaparecida, responsabilidade (responsabilização), participação, liberdade, (auto) fechamento (no sentido, de isolamento no quarto; mas, igualmente, de conexão com o mundo (a fluidez público/privado será bem maior no novo caldo de cultura em que nos movemos; o adolescente, no quarto, a assinar uma petição em defesa de um povo geograficamente distante, ou a participar em uma conferência nos antípodas no globo). Na desocultação dos significados simbólicos e sociológicos da proliferação dos ecrãs (tv, telemóvel, net, tablet, ipad, etc., etc.), importa, na verdade, compreender que os artefactos tecnológicos que construímos respondem a demandas que surgem em uma sociedade – a cultura da participação, da interactividade, da recusa da passividade, do multitasking, da responsabilidade, porventura alimentaram o surgimento, ou, pelo menos, a massificação da internet -, inserem-se em uma cultura e fazem bascular os marcos sociológicos anteriores à sua presença (com a comunicação de massas, o centro era o media, na comunicação em rede, o centro é o indivíduo; no seio de uma cultura em que a criança ou adolescente domina melhor que os pais/encarregados de educação os mecanismos informáticos e da net, o controlo sobre estes, sobre tais mecanismos e os jovens em maturação, tornam-se delicados; registe-se como, ainda agora, os media mais controlados são a televisão e o telefone [Cardoso, 2013, p.151]). Na socialização actual da pessoa, o possível choque de valores entre grupos de pertença – a família, ab initio – e grupos de referência – os media, e a net em especial – pode fazer sentir-se com acuidade. Daí que, de novo, seja preciso tomar a sério a tarefa de um real empoderamento e capacitação – desígnio fulcral das políticas públicas, bem mais do que o assistencialismo, no entendimento do prémio Nobel da economia e filósofo Amartya Sen (2001) – dos jovens (em formação) quanto à literacia mediática:


“as competências relacionadas com literacias para os média – utilização, compreensão ou acesso, análise, avaliação e produção criativa – relacionam-se com aspectos de desenvolvimento e expressão individual, tais como consciência, pensamento crítico e capacidade de solucionar questões. Estas premissas são particularmente significativas no estudo dos novos media, em geral, e da internet, em particular, na medida em que este meio de comunicação combina, na sua génese, comportamentos híbridos de outros meios de comunicação, que vêem no online a oportunidade, ou a condição essencial para a sobrevivência. Literacia para os media coloca-se, então, como habilidade para aceder, analisar, avaliar e criar conteúdos simbólicos numa variedade de contextos” (Paisana & Cardoso, 57/58).


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