domingo, 8 de junho de 2014

POR OUTRO LADO


Por Outro lado

Brilham os olhos do entrevistado, humilde e generoso na conversa, denunciando uma curiosidade infinita, uma sede de conhecimento larvar, de tentar compreender, satisfeito com as perguntas da entrevistadora, interessante a falar da Moçambique natal onde as matérias que aprendia na escola primária nada tinham que ver com a realidade local, rios, caminhos de ferro, terras da metrópole do Império antes do fim; a vinda para Lisboa, o curso de Direito, por vontade da família, e uma escassa presença no escritório do advogado Palma Carlos para o estágio subsequente - era já a inquietude da Filosofia, de resto uma paixão desde a infância, que o animava. Cursa na Sorbonne, na então grande Sorbonne, entre grandes mestres - guarda, em particular, na memória, a placa com a inscrição de monsieur Ricoeur - não, não era um curvado Professor Doutor, senhor Professor Doutor a todo o momento e instante, mas cada um não desconhecia que estava ali para aprender e que monsieur era quem sabia; o prazer especial, naquela escola, naquela época, era todos estarem apaixonados e comprometidos com o que aprendiam; veio o ano de 1968 e a rua (parisiense) encheu. Mesmo com aqueles que, dominando o ofício da Filosofia e, tempos antes, polemizadores, horas a fio, de uma expressão de Kant, se obrigavam, agora, em nome do sonho, violência auto-inflingida, a achar geniais as tiradas de Mao, no Livro Vermelho, com coisas como "o um divide-se em dois". Tempos interessantes, no sentido chinês do dito. Especializa-se o Professor: Epistemologia, filosofia da Ciência, coisas que, nos recantos da matéria que ficaram só para si, "só eu sei fazer". Provavelmente, nada ficará, ou pouco ficará do que escrevo, refere, mas, neste domínio em concreto são coisas que "só eu sei fazer". Quanto a demais áreas da Filosofia, qualquer um, com a formação que ele teve, teria ideias que o Professor tem. Ideias próprias "só as comecei a ter muito tarde", porque, na verdade, aceder a esse patamar de uma "filosofia própria" dá muito trabalho e...muito gozo. Pela época da entrevista, 2002, Fernando Gil vai ao Porto fazer conferência sobre a música. Mais ainda do que uma concentração, exclusiva, na música: forma de perscrutar as afinidades; o amor, para o dizer numa palavra, é o que o interessa. Julgo compreender, nesse instante redescoberto a 12 anos de distância, o que motivou no filósofo tão grande apreciação pela encíclica primeira, Deus caritas est, de Bento XVI
Reconhece, num parceiro de arte, uma justa crítica ao livro que escreveu sobre a convicção - é um pouco aborrecido, mas acho que ele tem razão nas observações que faz e vou ter que recompor algumas partes, assume com a elevação dos grandes. Que passa muito pela simplicidade que o seu escrever, sem o hermetismo da disciplina, cada vez mais procurava. Mesmo um filósofo liberal como Popper entendia nenhuma violência existir em os mais preparados terem mais tempo de antena, nas TV's, para os demais poderem aprender com eles. Morrer menos idiota - recupera Gil o bom slogan e desígnio. Era isso que era possível em Por outro lado, com Ana Sousa Dias, e conversas sem atropelos, com tempo e respiração, novos protagonistas e diálogos inteligentes. Há dias, ao escutar esta conversa na RTPMemória, recordei o que perdemos.


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